Saúde

Doença específica da gestação provoca riscos para mãe e bebê

Pré-eclâmpsia: Umas das principais causas de mortalidade materna

Vanessa Menezes - RMVALE

Em setembro deste ano uma história chocou o Brasil. A enfermeira Jéssica Guedes, de 30 anos, que estava grávida de 7 meses, morreu minutos antes de se casar, devido a um AVC hemorrágico, em decorrência de uma eclâmpsia. A repercussão do caso serviu de
alerta sobre a pré-eclâmpsia, um distúrbio que afeta cerca de 5% das mulheres grávidas.
O ginecologista e obstetra André Camargo Farinha, coordenador do serviço de obstetrícia do Ambulatório da Mulher em São José dos Campos, esclarece sobre as características da doença, os riscos para a mãe e o bebê e a importância do acompanhamento criterioso.

“Em primeiro lugar é preciso entender o que é pré-eclâmpsia e eclâmpsia. A pré-eclâmpsia caracteriza-se pelo aumento de pressão associado à presença de proteína na urina ou a uma disfunção de órgãos. A eclâmpsia é a evolução para o estágio mais grave, com desenvolvimento de convulsões em pacientes com pré-eclâmpsia. Podem ocorrer
Pré-eclâmpsia: Umas das principaiscausas de mortalidade materna Saúde& Doença específica da gestação provoca riscos para mãe e bebê ainda complicações como, ruptura o
fígado, coagulação intravascular disseminada, onde o sangue começa a coagular dentro dos órgãos, acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, edema agudo do pulmão e falência renal, que podem levar à morte da gestante. No caso do bebê, como a placenta
não se forma adequadamente, ofluxo de sangue da mãe para o neném pode ser alterado, com isso, ele não se desenvolve direito e pode faltar oxigênio. Ele pode nascer antes da hora e pode ocorrer também a morte na barriga”, explica.
As causas da pré-eclâmpsia ainda são desconhecidas de acordo com o médico. “O que sabemos é que se tratade uma doença originária da placenta. É um defeito no início da  gravidez no desenvolvimento da placenta que se complica, devido a fatores genéticos e
imunológicos da mãe, e estão associados à hipertensão arterial, que pode ser crônica ou específica da gravidez. Quanto mais precoce aparecem os sintomas de pré-eclâmpsia pior é. Antes de 30 semanas de gravidez o prognóstico é considerado mais grave”, esclarece.

“As síndromes hipertensivas são
responsáveis pela maioria das mortes
maternas e por uma grande taxa de
prematuridade “

André Camargo Farinha,
ginecologista

Farinha conta que atualmente na rede pública de São José dos Campos, cerca de 30% das internações de gestantes ocorrem por conta de hipertensão. “As síndromes hipertensivas são responsáveis pela maioria das mortes maternas e por uma grande taxa de prematuridade. Aqui no ambulatório as gestantes são acompanhadas com uma
frequência de consultas maior do que o normal e é seguido um protocolo específico para evitar a eclâmpsia, que é o caso mais grave. Nesses casos, a gente que cuida de gestantes, acompanha o desfecho tanto da mãe quanto do bebê” conta. E. S. M. S., estudante, de 17 anos, está com 8 semanas da sua primeira gestação e foi encaminhada para acompanhamento pré-natal no Ambulatório da Mulher.

“Eu sempre tive pressão alta por causa do meu peso. Não tenho muita informação sobre pré-eclâmpsia, mas sei que no meu caso preciso me cuidar mais do que as outras gestantes e preciso tomar remédio para controlar a pressão. Sei que existem riscos, mas  não tenho pensado  muito nisso, prefiro me concentrar em cuidar de mim e do meu bebê o melhor possível”, contou.

“Eu sempre tive pressão alta por
causa do meu peso. Não tenho
muita informação sobre pré-eclâmpsia”

E. S. M. S.,
estudante

As pacientes que apresentam pressão alta antes da gravidez estão mais suscetíveis a desenvolver a pré-eclâmpsia, assim como gestantes que apresentam obesidade, diabetes, gestação de gêmeos e grávidas com mais de 40 anos, aponta o médico. “É importante destacar que existe a pré-eclâmpsia leve e a grave, e a leve pode evoluir para grave. Em alguns casos, internamos a paciente para realizar exames laboratoriais e, fazemos um exame de urina onde ficamos 24 horas colhendo a urina para ver a dosagem de proteína”, explica.

Para o coordenador de obstetrícia, a única maneira de controlar a pré-eclâmpsia é o acompanhamento pré-natal criterioso e sistemático da gestação. “Quando é identificado o risco, entramos com o tratamento com medicamentos para controlar a pressão e, em alguns casos, a suplementação com cálcio. Não gosto muito de restringir minhas pacientes. Com o acompanhamento correto dá para elas terem uma vida normal, mas em alguns
casos, dependendo da atividade profissional, solicitamos o afastamento do trabalho. Tentamos conscientizá-las sempre de que se trata de um problema grave. Alertamos para se dirigirem ao pronto socorro em caso de dores de cabeça, alteração visual, dor na região alta do abdômen perto do fígado, dor de estômago, inchaço nas pernas e tonturas, que são os sinais mais comuns”, esclarece. Diane Ferreira, empresária, de 33 anos, conta que está na segunda gestação, mas só apresentou os sintomas de pré-eclâmpsia na metade desta última gravidez.

“Eu já estava com o quadro de pressão alta antes de engravidar. Com a gravidez, comecei a ter muito mal-estar e me encaminharam para o Ambulatório da Mulher. Além da medicação, eu verifico a pressão duas vezes na semana no postinho perto de casa. Graças a Deus nunca tive uma crise. Minha alimentação também é bem regrada com pouco sal e muitos legumes. Acabei de completar 9 meses e a família está toda ansiosa pelo bebê. Meu filho mais velho está contando os dias para conhecer o irmãozinho. Estou feliz por ter chegado bem até aqui. Só não quero ter parto normal. Tenho um pouco de medo, se puder
escolher, prefiro a cesárea, mas está nas mãos de Deus”, contou. Segundo o especialista na maioria das vezes as pacientes que apresentam a pré-eclâmpsia podem ter parto normal.

“A pré-eclâmpsia por si só não é indicação de cesariana. É preciso avaliar certinho, estabilizar a mãe e se ela já estiver em trabalho de parto pode ser conduzida para o normal. Algumas vezes é necessário induzir o parto, mas somente em situações de risco a cesárea é indicada”, conta. Mesmo após o nascimento da criança, as gestantes com pré-eclâmpsia têm um risco de desenvolverem problemas cardiocirculatórios, e por isso precisam de acompanhamento até 6 semanas após o parto.

“Além da medicação, eu verifico a
pressão duas vezes na semana no
postinho perto de casa”

Diane Ferreira,
empresária

“Nas consultas pós-parto, se verificamos alguma alteração, já encaminhamos para o cardiologista. Porém mesmo que a pressão volte ao normal, essa paciente precisa estar ciente de que ela tem mais chances de desenvolver problemas cardíacos e renais.
Ela precisa se cuidar mais que o normal, com atividade física regular, controle de glicemia e colesterol, evitando a obesidade e diabetes. É preciso orientá-las muito bem também no pós-parto”, finalizou.

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