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Da Série A-2 à quarta divisão: um raio-x da situação dos times da RMVale

Enquanto o Taubaté tenta, sozinho, retornar ao nível maior do futebol do Estado, outros três times da região querem alçar voos maiores

Fase final de campeonato. Três tradicionais times da região brigam pelo título e acesso no Campeonato Paulista. Nas casas, bares e restaurantes, milhares de torcedores estão atentos às informações vindas da TV ou do rádio, prontas para soltar o grito de gol preso na garganta e extravasar todas as emoções acumuladas durante meses de competição.

A cena descrita acima pode até parecer atual para os mais desavisados, mas, na verdade, aconteceu há 40 anos, quando Taubaté, São José e Esportiva de Guaratinguetá participaram, juntamente com o Santo André, do quadrangular final da Divisão de Acesso do Campeonato Paulista de 1979.

Na última rodada da competição, o Taubaté venceu o São José por 2 a 1 no estádio Palestra Itália, em São Paulo, e se sagrou campeão daquele ano, conseguindo a vaga na Primeira Divisão em 1980. Muitos anos se passaram e a situação dos clubes e do futebol na RM Vale é bem diferente da “época de ouro” vivida pelos torcedores.

Destes três times que disputavam o acesso à divisão especial do Campeonato Paulista no final dos anos 1970, apenas o Taubaté pode chegar à elite do futebol do Estado. Campeão da Série A-3 de 2015, o Burro da Central disputa a Série A-2 desde 2016. Neste ano, o clube teve um campanha irregular, cheia de altos e baixos, com cinco vitórias, quatro empates e seis derrotas, sendo eliminado nas quartas de final da competição após ser goleado pelo Água Santa por 5 a 0 na primeira partida, jogando no Joaquinzão, e sofrer outro revés por 2 a 0 em Diadema.

Com a eliminação, o presidente em exercício, ex-atacante e ídolo dos torcedores Gilsinho não escondeu a frustração pelo resultado. Segundo ele, a esperança criada por todos caiu após a primeira partida do mata-mata do campeonato, quando o Taubaté foi goleado. “O Taubaté segue vivo, já vamos para o quinto ano da A2, estruturando o clube, principalmente com a base. Acredito que o Taubaté consiga caminhar de uma maneira melhor agora”, disse o dirigente em entrevista à Rádio Cacique logo após a desclassificação pelo Água Santa.

Nas arquibancadas, a frustração é ainda maior. Para o vigilante Jefferson Ribeiro, de 32 anos, o elenco montado pelo Taubaté neste ano foi muito fraco em relação aos anos anteriores. “Esse ano fizeram tudo certo: mantiveram o técnico do ano passado, tinha uma estrutura boa dentro das possibilidades, pagou em dia, mas erraram feio na montagem do time. Foi um dos piores elencos que eu vi no Taubaté. Mas, mesmo com alguns erros, o Taubaté está chegando, se classificando nas competições. É só acertar a mão na contratação de jogadores que vamos conseguir coisa melhor”, afirma o torcedor.

“Agora, para a disputa da Copa Paulista no segundo semestre, o Taubaté tem que mudar a mentalidade. Acredito que o campeonato estadual está desvalorizado, então a diretoria deve se voltar mais para a competição do segundo semestre e entrar para ser campeão, para que possamos disputar uma competição nacional”,

Jefferson Ribeiro, vigilante, 32 anos

Além da Copa Paulista, Burro da Central também terá outro desafio para o segundo semestre: eleição que vai decidir o novo presidente do clube. As chapas e os participantes do pleito que acontece ainda são um mistério. A certeza, porém, é que o novo presidente vai encarar um grande desafio. Isso porque, além de ter a pressão fazer um time forte para recolocar o Taubaté na elite do futebol paulista depois de 35 anos, o novo mandatário vai precisar olhar para a estrutura do estádio Joaquim de Morais Filho. Com parte da arquibancada danificada desde janeiro de 2018, o local chegou a ser liberado para apenas mil torcedores em alguns jogos do Campeonato Paulista deste ano. Como o estádio é próprio — o único entre os times da região – o Taubaté busca recursos para consertar a área que está interditada e até aumentar a capacidade do estádio.

Em Guaratinguetá e São José dos Campos, a situação é totalmente distante da vivida em Taubaté. Se o time da cidade de Monteiro Lobato está a um nível da principal divisão do futebol paulista, na terra de Frei Galvão as coisas são um pouco mais complicadas do que se imagina. Com a Esportiva e o Guaratinguetá LTDA – esse último chegou a disputar a Série B do Brasileirão – extintos, a cidade aposta as fichas no apoio ao simpático Manthiqueira na disputa da Quarta Divisão do Campeonato Paulista. Fundado em 2005, o clube é conhecido pela cor laranja do uniforme, inspirado na seleção da Holanda, e também pelo jogo limpo proposto pelo presidente Dado Oliveira.

Fã do técnico Rinus Michels, que comandou o “Carrossel Holandês” na Copa de 1974, o mandatário do clube de Guaratinguetá faz questão de passar sua filosofia para os jogadores. Em campo, os atletas não podem xingar ou palavrão, cavar pênalti ou fazer faltas duras. A numeração do uniforme também é diferente: o capitão sempre veste a camisa número 1 e o goleiro a número 11. À beira do gramado, o fato de uma mulher comandar o time masculino do Manthiqueira torna a história do clube ainda mais incomum e interessante. Nilmara Alves começou no clube em 2012 e depois de um período fora, retornou à “Laranja Mecânica” em 2018. Neste ano, a treinadora tenta repetir o feito conquistado pelo clube em 2017, quando se sagrou campeão da quarta divisão, conseguindo o acesso para a Série A-3 do ano seguinte.

A aventura do Manthiqueira na terceira divisão paulista, porém, foi muito aquém do esperado. Com apenas três vitórias, três empates e trezes derrotas, o clube foi um dos seis rebaixados no ano passado, retornando para o último nível do futebol do Estado.

“O Manthiqueira apostou neste ano em atletas oriundos de outros estados, como Bahia e Pará, atrelado a algumas revelações que estão tendo oportunidade neste ano”,

Bruno Leandro, jornalista

Já em São José dos Campos, as atenções se voltam para os dois times da cidade também na quarta divisão. O Joseense (que já foi chamado de São José dos Campos Futebol Clube) não tem nenhum apelo e sofre com a falta de torcedores nas arquibancadas. Comandado por Rafael Attili, ex-auxiliar do Taubaté, o clube tenta passar da primeira fase da competição e tentar atrair um pouco de apoio por parte dos amantes do futebol que vivem na cidade.

Do outro lado, está o tradicional São José, que já figurou entre os grandes de São Paulo e também do país. Muitos torcedores ainda se lembram do Campeonato Paulista em 1989, quando a Águia do Vale desclassificou o Corinthians na semifinal e enfrentou o São Paulo na grande final da competição. Além do vice-campeonato daquele ano, os torcedores joseenses também se lembram com carinho do time que disputou o Campeonato Brasileiro de 1990.

A realidade, porém, é bem diferente se comparada ao passado. Com dívidas, o clube vai para a sua terceira participação na última divisão do estadual. Após o rebaixamento em 2016, a Águia bateu na trave duas vezes e não conseguiu o acesso para retornar à Série A-3. Em 2018, a vaga estava assegurada, mas um gol sofrido aos 48 do segundo tempo na partida contra o Comercial de Ribeirão Preto acabou com o sonho dos torcedores. Nas duas primeiras rodadas de 2019, dois empates contra Paulista de Jundiaí e Atlético de Mogi das Cruzes. Apesar dos resultados não empolgarem, a paixão pelo clube faz com que a torcida acredite em tempos melhores durante a competição. “Sou torcedor da Águia e acompanho o time há anos. Vi de perto o vice-campeonato de 1989 e a participação no Brasileirão de 1990 e o que vejo hoje é que o time está fraco. Do jeito que começou, vão ter que tomar providência rápido ou não vão passar da primeira fase”, analisa o torcedor joseense José Paulo Gonçalves, de 60 anos.

E a preocupação do torcedor tem fundamento, pois de acordo com o vice-presidente do São José, Vanderlei da Graça, o investimento feito este ano é bem inferior ao ano passado. Em 2018, a folha salarial do time joseense era de R$ 110 mil mensais e em 2019 ela chega a R$ 60 mil. Com dívidas que chegam à casa dos R$ 14 milhões, os dirigentes tentam se virar como podem para honrar os compromissos e manter o time em campo.

Para Vanderlei da Graça, apesar de todos os problemas enfrentados pelo clube nos últimos anos, o objetivo do São José é o mesmo dos últimos anos: o acesso. “É lógico que a intenção é subir, mas esse campeonato é muito ruim. Por ser muito longo, tem muito gasto. São cinco meses de disputa, para 40 times brigarem por duas vagas apenas. E, fora o São José, tem outros times tradicionais, com camisas pesadas, brigando por esse acesso também. Marília, XV de Jaú e outros clubes que já figuraram na primeira divisão estão disputando com a gente essas duas vagas. É muito difícil porque não depende apenas da gente e sim de uma série de fatores”, afirma Graça.

Além da concorrência e do investimento
menor em relação aos anos anteriores,
o São José também enfrenta a dificuldade de conseguir apoio e recursos para manter o salário dos jogadores em dia. Vanderlei da Graça explica que os patrocínios que o clube exibe nas camisas ainda é pequeno e que para conseguir um patrocínio master é preciso ter a certidão negativa. Enquanto isso não acontece, a diretoria da Águia se desdobra para pagar os compromissos. “Quando assumimos, nós sabíamos que a dívida era grande, mas estamos aqui por amor ao São José. Estamos fazendo das tripas coração para pagar tudo direitinho, até mesmo tirando do nosso bolso. Para arrumar a casa ainda vai uns cinco, sete anos, mas nós estamos no caminho. De 2017 para cá reestruturamos o time e em dezembro nós vamos conseguir essa certidão negativa”, explica o vice-presidente do São José, que pretende permanecer a frente do clube nos próximos dois anos. Assim como o rival Taubaté, a Águia do Vale também terá eleições neste ano. O pleito deve acontecer em outubro e Vanderlei da Graça já assegurou seu nome como candidato.

“O atual presidente [Adilson José da Silva já disse que não quer a reeleição, então eu serei um dos candidatos. São 86 anos de história, então nós temos que comemorar e lembrar o São José sempre. Em dezembro, nós queremos fazer um amistoso entre os jogadores que fizeram parte do time vice-campeão de 1989 e o time de máster do São Paulo para comemora os 30 anos daquele feito que ficou marcado para todos nós”, revela o dirigente.

Apesar da dificuldade financeira enfrentada todos os anos pelos clubes da região, a torcida é que os anos de vitórias e conquistas retorne à RMVale.

A Águia e o Tigre na selva de concreto

Atlético Joseense e São José EC entraram em campo em 21 de abril, às 10 horas, no estádio Martins Pereira, em São José dos Campos, pela terceira rodada do Campeonato Paulista da Segunda Divisão, a popular Segundona, o quarto e último patamar do futebol estadual.

Até então as duas equipes estavam invictas e também sem vencerem na competição. O Tigre do Vale havia estreado com empate sem gols, fora de casa, com o União Mogi e, depois empatou, em casa, com o Amparo por 1 a 1. Já a Águia não saiu do zero na primeira partida, em casa, com o Paulista de Jundiaí e depois arrancou um empate, fora de casa, diante do Atlético Mogi por 1 a 1.

O duelo do domingo era entre dois times, da águia que sonha em voar alto e do tigre que ainda tenta ser veloz. Se enfrentaram oficialmente apenas quatro vezes, sempre no Martins Pereira. Em 2015, pela Série A3 do estadual, com empate de 1 a 1. Um ano depois, também pela Série A3, com gols de Hiago e Rayne, o Joseense venceu a partida foram assistir o duelo. O jogo, bastante equilibrado, teve chances de gol vindo dos dois lados do campo. A Águia, ainda tentando alçar voos mais altos, abriu o placar com Leandro, aos 14 minutos do segundo tempo. O Tigre, longe da velocidade necessária na savana esportiva, tentou buscar o empate, não conseguiu. São José desempatou os confrontos e conseguiu sua primeira vitória na Segundona. por 2 a 1. Douglas Santos fez o gol da Águia.

Já rebaixados para a Segundona em 2018, mais dois confrontos dentro do Grupo 4. Pela 4ª rodada, com gol do zagueiro Raphael, o São José venceu o rival por 1 a 0 e, na 11ª rodada, ele epataramsem gols.

Nesta Páscoa, ainda tentando a glória, se reencontraram. Menos de 700 torcedores foram assistir o duelo. O jogo, bastante equilibrado, teve chances de gol vindo dos dois lados do campo. A Águia, ainda tentando alçar voos mais altos, abriu o placar com Leandro, aos 14 minutos do segundo tempo. O Tigre, longe da velocidade necessária na savana esportiva, tentou buscar o empate, não conseguiu. São José desempatou os confrontos e conseguiu sua primeira vitória na Segundona.

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