Especial& – Quarentena

A prevenção que mudou a nossa rotina

Você já parou para pensar como era o seu dia há pouco mais de um mês? Quando acordava cedo para ir à escola ou ao trabalho, até mesmo para fazer uma simples caminhada na rua? Adiamos viagens, refizemos planos e para sair de casa, só se houver necessidade. Crianças e adultos viram as atividades mudarem de rumo e ainda não sabem até quando terão que se proteger com máscaras e álcool em gel.

Mesmo aqueles que não conseguem se manter em quarentena dentro de casa , viram tudo ao redor ir parando aos poucos. Pouca coisa, ou quase nada tem sido como antes.

A família da Ana Amélia Holanda Vieira que o diga, ela faz bolos e doces em casa e passou ter a companhia diária do esposo que entrou de férias no trabalho, e das duas filhas que estão sem ir para a escola há pouco mais de um mês. Para ocupar o tempo das meninas, ela está tentando criar uma rotina, para que possam também estudar. “A gente tá tentando introduzir atividades, pintura, desenho e corte para elas se entreterem um pouco.”

Ana Amélia , o marido e as filhas
reinventam uma nova rotina em casa

“A gente tá tentando introduzir atividades, pintura, desenho, corte pra elas se entreterem um pouco”

Ana Amélia

Já o marido, passou a ajudar no trabalho dela. “Aumentou o volume de encomendas, de festas pequenas nas casas, lanches também. Então ele está trabalhando, por enquanto que está em casa, nas entregas. Ele vai de bicicleta e eu fico fazendo junto com ele. A nossa quarentena está sendo trabalhar em casa com produção maior.”

Em cada lar uma história, uma mudança, o retrato de uma fase que veio sem avisar. A quarentena é a reclusão de pessoas sadias pelo período máximo de incubação da doença, para evitar que sejam contaminadas. O confinamento pode levar menos ou mais tempo do que 40 dias.

Apesar de ficar em casa, para a maioria por prevenção, o isolamento mais rígido mesmo no ambiente familiar ou em hospitais é voltado para os doentes no período de alto risco de transmissão, a fim de evitar que outros indivíduos sejam infectados.

Isolamento total ou seletivo?
Isolamento social é quando as pessoas se afastam de interações com outras pessoas e de atividades sociais, de forma voluntária ou involuntária, como tem sido estabelecido neste momento de prevenção ao coronavírus. Ele passa a ser seletivo quando é direcionado para apenas uma parte da população, quando há a necessidade da pessoa evitar o contato social, por estar infectada, por fazer parte do grupo de risco ou por ter a saúde mais debilitada.

Em uma pesquisa feita no Portal Meon, perguntamos aos nossos leitores como estava sendo a rotina deles com a quarentena do coronavírus.

O resultado entre os que saem de casa só quando necessário e tomando os devidos cuidados foi praticamente o mesmo dos que responderam que estão saindo sem necessidade e sem nenhum tipo de prevenção, sendo 40,5% e 39,8% respectivamente. O percentual daqueles que não estão saindo de casa, respeitamdo o rigor do isolamento foi de 11,6% e daqueles que seguem com a rotina normal mesmo com a quarentena foi de 8,1%, sendo a minoria.

Essa é uma amostra de como o assunto e até mesmo o comportamento diante do risco de contaminação por Covid-19, tem dividido opiniões. O que se estende às autoridades de saúde e governantes.

De um lado estão as pessoas preocupadas com a disseminação da doença como ocorreu em outros países como Itália, China, Espanha e França. Do outro estão aquelas que acreditam que o número de casos no Brasil é baixo e que não justifica o isolamento total, como se o vírus não representasse tanto perigo como informado mundialmente.

O grupo de risco é composto principalmente pelos idosos e pessoas com doenças crônicas, mas a possibilidade de contágio é para todos, conforme os alertas feitos pela Organização Mundial da Saúde.

O Sistema de Monitoramento Inteligente (SIMI-SP) do Governo de São Paulo mostrou que o percentual de isolamento social no Estado foi de 57% até o dia 20 de abril, mesmo abaixo do ideal que seria de 70%, foi ressaltado pelo governo.

Das cidades da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte, São Sebastião aparece com 67% de isolamento, Cruzeiro e Ubatuba com 64%, Lorena com 63% e Caraguatatuba com 61%.

Já entre as cidades com o menor índice de isolamento da região estão São José dos Campos e Taubaté com 51% e Jacareí com 54%.

Três dias depois, o índice estadual reduziu para 48% nas 104 cidades com mais de 70 mil habitantes, que estão sendo monitoradas

O monitoramento é feito com apoio das operadoras de telefonia, que repassam informações sobre o deslocamento da população de cada lugar.

Supermercados viram atração
Ir ao supermercado se tornou o principal local para quem busca uma fuga nem que seja rápida do isolamento social. A recomendação é tomar os cuidados básicos, manter o distanciamento em filas e que o ambiente, assim como os carrinhos estejam higienizados com álcool.

Fila em supermercado às vesperas da Páscoa em São José dos Campos

Em uma rede de supermercados, a fila na porta em uma loja de São José dos Campos, era enorme às vésperas da Páscoa.

A movimentação também foi  crescendo em outros estabelecimentos do mesmo segmento com a proximidade da data. Teve empresário que disse que as vendas deste ano foram maiores e mais rápidas do que nos anos anteriores. Outras redes informaram um acréscimo de 5% a 15% nas vendas de ovos de chocolate.

Esse tipo de estabelecimento tem ficado movimentado principalmente nos finais de semana. O setor da alimentação não sofreu tanto impacto econômico quanto as empresas que não são consideradas como serviços essenciais. A opção de entrega e atendimentos virtuais tem ajudado também a manter as atividades.

 

Comércio fechado
Com a determinação estadual ainda em março, os decretos municipais que previam o fechamento do comércio, para atividades não essenciais, foram colocados em prática em boa parte dos municípios. Uma forma de atender às recomendações das autoridades de saúde para evitar aglomerações e incentivar o distânciamento social, prevenindo o vírus.

“Gripário” em Ilhabela foi montado no estacionamento do Hospital Municipal Governador Mário Covas, para ajudar na triagem de pacientes

Pouco mais de um mês depois, comerciantes, empresários e a indústria passou a se manifestar contra a crise econômica que a medida vinha causando, apesar da importância de evitar o perigo da contaminação. Ocorreram protestos, pedidos de apoio, reuniões, corte de gastos e até demissões.

A primeira cidade a flexibilizar o comércio foi Ilhabela, onde a restrição na entrada de pessoas na cidade ajudou a segurar o número de casos, mas o decreto foi suspenso pela justiça. A travessia nas balsas segue restrita.  Foi a única cidade do Litoral Norte que desde o dia 10 de abril não apresentou crescimento do número de casos confirmados de coronavírus, mantendo-se com três no total. Há pouca procura nas unidades de saúde, um aspecto positivo para os moradores.

Em São José dos Campos, a fiscalização foi rigorosa no comércio. Foram mais de cem mil reais em multas e empresas foram notificadas por estarem funcionando sem autorização. Dias depois foi divulgada a permissão temporária de funcionamento para parte do comércio, um retorno gradativo que começaria no dia 27 de abril, mas que precisou ser adiado. O decreto também foi suspenso pela justiça a pedido do Ministério Público com base no decreto estadual.

Quarentena no estado de São Paulo
A quarentena imposta pelo governador João Doria foi prorrogada até o dia 10 de maio, incialmente seria concluída no dia 22 de abril depois de passar pela primeira prorrogação. A justificativa do governo é o crescente número de casos principalmente na capital. Já haviam 1.134 mortes confirmadas no estado. Cerca de 73% dos leitos de UTI estavam ocupados por pacientes na capital e 53% em todo estado.

A abertura gradual do comércio foi anunciada por Doria em uma coletiva de imprensa, mas somente a partir do dia 11 de maio, caso a quarentena não seja prorrogada.

“Até o dia 10 de maio, não haverá nenhuma alteração na quarentena. Os critérios daquilo que virá a partir do dia 11 serão diferenciados e de acordo com dados científicos apurados em cada cidade e pelas regiões do estado. Definiremos gradualmente os protocolos para essa volta responsável e segura à normalidade econômica, mas protegendo vidas”, afirmou durante a fala. O anúncio veio acompanhado de um aviso, aos municípios que não respeitassem a medida. A permissão da reabertura parcial antecipada poderia ser penalizada judicialmente. Para evitar a situação, ele passou a dialogar com os prefeitos por videoconferência, para tentar convencê-los de esperar.

“A decisão judicial não considerou todos os dados, informações técnicas, nosso levantamento científico, tão pouco questionou os números que nós apresentamos”

Felício Ramuth, 
prefeito de São José dos Campos

Mesmo assim, o prefeito Felício Ramuth, de São José dos Campos, tentava reverter na justiça, a decisão que suspendeu a reabertura parcial do comércio na cidade, o que foi negado. O decumprimento poderia gerar uma multa de 10 mil reais por dia.  Quando houve a suspensão, o prefeito divulgou na própria rede social a indignação dele. “A decisão judicial não considerou todos os dados, informações técnicas, nosso levantamento científico, tão pouco questionou os números que nós apresentamos”, disse Felicio.

Parelelo a tudo isso, a sexta morte por coronavírus era confirmada em São José. A segunda no mesmo dia.

Também na rede social, Felicio Ramuth denunciou “viés ideológico” por parte da juíza, que barrou o decreto que liberava o funcionamento do comércio, por causa de uma publicação feita pela mãe dela na internet, xingando o prefeito e antecipando a decisão judicial. O Tribunal de Justiça informou que “não se pronuncia sobre decisões judiciais ou sobre quaisquer manifestações feitas a elas”. Ambas evitaram falar publicamente sobre o assunto.

 

Sai Mandetta e entra Teich
Em meio a tantas decisões e ações, uma troca em um cargo estratégico no combate à pandemia movimentou o Governo Federal nos últimos dias. O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, assumiu a responsabilidade de se tornar um dos centros das atenções no país, no lugar de Luiz Henrique Mandetta. Foram sucessivos desentendimentos entre Bolsonaro e o ex-ministro sobre as diretrizes das políticas públicas de combate ao novo coronavírus. Mandetta se mostrava a favor de medidas de isolamento social, como recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS). Já o presidente Jair Bolsonaro, defende flexibilizar as medidas de distanciamento para a retomada da atividade econômica.

O presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, durante pronunciamento no Palácio do Planalto

Após a posse, Teich que é médico oncologista, disse que os que mais vão sofrer os efeitos da pandemia são os mais pobres e destacou que assumir o comando da Saúde é o “maior desafio” de sua carreira profissional.

 

Bolsonaro X Rodrigo Maia
No mesmo dia que anunciou oficialmente a saída de Mandetta do Governo, Bolsonaro fez duras críticas à postura do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia.  Disse que Maia estaria atrapalhando os trabalhos do Governo Federal e jogando os governadores contra ele. “ Isso que o senhor está fazendo, Rodrigo Maia, não se faz… é falta de patriotismo, falta de coração verde e amarelo, de humanismo.” disse Bolsonaro durante entrevista.

Na mesma noite, Rodrigo Maia usou um discurso na defensiva para responder ao presidente da República e negou que esteja priorizando interesses políticos neste momento: “Ele pode me tacar pedras, que eu devolverei flores”.

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