Especial – Doação de órgãos

Um ato de amor e solidariedade que salva

Doação de órgãos, a chance de uma nova vida

De um lado esperança, do outro, solidariedade. São sentimentos parelhos em uma doação de órgão. Para o paciente que precisa da doação, um órgão novo significa a chance de ter um futuro. Para a família do doador, a chance de transformar um momento de perda em vida.
Segundo informações do Ministério da Saúde, o Brasil é referência mundial em transplantes de órgãos, 96% dos procedimentos realizados em território nacional são financiados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Os exames pré-operatórios, internação, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante são todos custeados pela rede pública de saúde. O país é o segundo maior transplantador do mundo.

Há dois tipos de doadores possíveis. O primeiro é o doador vivo que pode doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea ou parte do pulmão. De acordo com a legislação brasileira, parentes de até o quarto grau e cônjuges podem fazer a doação desde que não prejudique a sua própria saúde. Pessoas que não são parentes precisam de autorização judicial.
O segundo é o doador falecido. São pacientes que tiveram morte encefálica – também chamada de morte cerebral – que são pacientes vítimas de catástrofes cerebrais, como traumatismo craniano ou AVC (derrame cerebral).

É importante destacar que não é possível fazer a captação de órgãos em qualquer falecido, somente nas pessoas em morte cerebral. Neste caso, apenas a família pode autorizar a doação. Para o doutor Itamar Coppio, um dos médicos que auxiliou na implantação do sistema de transplante de fígado da Santa Casa de São José dos Campos em 2009 (o hospital é o único da RMVale que faz cirurgias de transplante) e membro da equipe até hoje, é muito importante que as pessoas deixem claro para a família que desejam ser doadores.
“Se deixar avisado, a família tem mais facilidade em tomar a decisão de doar. […] A doação de órgão é um processo complexo, delicado e que depende da confiança da população em um ato de amor e solidariedade”, afirma o médico.

“É muito importante deixar a família ciente, avisar que deseja ser doador. Se deixar avisado, a família tem mais facilidade em tomar a decisão de doar. […] A doação de órgão é um processo complexo, delicado e que depende da confiança da população em um ato de amor e solidariedade”

Itamar Coppio,
médico

Segundo dados do Ministério da Saúde, a taxa de rejeição das famílias tem caído ao logo dos anos: em 2013 era de 44% e em 2018 chegou a 36%. Para Dr. Itamar esta taxa ainda é muito alta comparada com as pessoas que necessitam de um órgão para continuar vivendo. Ele diz ainda que quando a morte cerebral acontece a autorização da família para a doação é essencial.
“As famílias precisam se sensibilizar, é importante que a população se conscientize. Quando cessam as funções, a atividade cerebral é irreversível. […] No caso do fígado, por exemplo, em seis meses muita gente morre a espera de uma doação”, diz.

O neurocirurgião Rogério Xavier, médico coordenador da Comissão Intra Hospitalar de Transplantes do Hospital Municipal de São José dos Campos, explica que o diagnóstico da morte encefálica é feito com muito cuidado e segue uma série de exigências, tudo para que não haja dúvidas e a família se sinta segura.
“Quando o paciente passa por lesões graves no cérebro e em algum momento é identificado que não há mais reflexos no sistema nervoso central, nós iniciamos uma série de exames. São dois exames clínicos feitos por médicos diferentes, depois fazemos exames complementares para verificar se não há circulação de sangue no cérebro”, explica o médico.

O doutor diz ainda que a legislação brasileira e o Ministério da Saúde obrigam os hospitais a iniciarem o processo diagnóstico quando há sinais de morte cerebral. Quando é fechado o diagnóstico, legalmente a pessoa está morta e é feito o atestado de óbito. A viabilidade ou não da doação é feita somente após a autorização da família do paciente.
“Se você tem um paciente na UTI que tem sinais de morte encefálica, obrigatoriamente, pela lei brasileira e pelo Ministério da Saúde, nós precisamos iniciar o processo diagnóstico. […] O diagnóstico de morte encefálica não tem nada a ver com a doação, são coisas distintas. Enquanto não é fechado o diagnóstico, não se fala em possibilidade de doação”, afirma Dr. Rogério.
Para ele, algumas famílias ainda têm receio de autorizar a doação por não conhecerem o processo. A decisão precisa ser tomada em um momento muito delicado, de perda e tristeza, e muitos têm medo de que o diagnóstico possa estar errado ou de que o corpo do ente querido possa ficar deformado para velório.

“Se você tem um paciente na UTI que tem sinais de morte encefálica, obrigatoriamente, pela lei brasileira e pelo Ministério da Saúde, nós precisamos iniciar o processo diagnóstico”

Rogério Xavier,
neurocirurgião

“É difícil de entender, o familiar pensa ‘como meu parente está morto se o coração está batendo?’[…] Uma preocupação constante também e é importante que as pessoas saibam: o corpo não fica desfigurado. Não da pra perceber que houve o transplante, nem mesmo no caso da captação de córneas”, explica o médico.
Há um grande cuidado e respeito com o corpo do doador. De acordo com o Hospital Albert Einstein, a retirada dos órgãos segue todos os procedimentos de qualquer outra cirurgia e os cuidados de reconstituição do corpo são obrigatórios por lei. No caso de uma captação de pele, por exemplo, não é retirado de locais aparentes, é colhido das costas e da coxa. No caso da doação de ossos, é retirado o fêmur e colocada uma prótese no local.

Uma nova vida
Marisa Aparecida dos Santos Silva Cabett, 56 anos, empresária formada em Economia Doméstica e Extensão Rural e pós-graduada em Nutrição, de Guaratinguetá, descobriu um problema renal pouco tempo antes de completar 50 anos. Ela conta que o tratamento foi difícil antes de conseguir um doador.

“Eu sou hipertensa desde os vinte anos, isso foi paralisando meus rins, mas eu fui descobrir depois que não estavam funcionando mais. […] Comecei a fazer a diálise. Naquela época o Governo tinha um programa que o paciente podia fazer a diálise em casa, eles emprestavam a máquina e davam um treinamento para alguém da família, no meu caso foi minha filha mais nova que mora comigo. No início fiquei bem debilitada”, conta Marisa.

Após dois anos de espera, ela conseguiu um doador. Um homem, de 38 anos, sofreu um acidente de moto e teve morte cerebral. A família autorizou a doação e três órgãos foram aproveitados, um dos rins salvou a vida de Marisa. Talvez por coincidência do destino, ela recebeu o novo rim em abril, mês de seu aniversário.
“Eu penso todo dia, agradeço muito. Você sai do hospital com vontade de ajudar também. Penso em melhorar a saúde da nossa cidade, em ver as pessoas vivendo melhor. […] Em abril do ano que vem vai fazer cinco anos do transplante. Eu comemoro meu aniversario duas vezes”, comenta.

Apesar da alegria de uma nova vida, o pós-operatório de um transplantado não é nada fácil. No caso de Marisa, ela precisou fazer sessões de hemodiálise para que o órgão se adaptasse ao funcionamento no novo corpo, a medicação também é muito forte. Ela também teve uma infecção e precisou prolongar a internação.

“Eu fiquei uma semana fazendo hemodiálise, para colocar o rim para funcionar. A dose é bem excessiva no início, por isso geralmente ficamos com o rosto bem inchado. […] Estava para receber alta, mas tive herpes zoster, e abaixou minha imunidade. Eu tomo medicação até hoje para não voltar”, conta Marisa.

“E a saúde da nossa cidade, em ver as pessoas vivendo melhoru penso todo dia, agradeço muito. Você sai do hospital com vontade de ajudar também. Penso em melhorar”

Marisa Aparecida dos Santos Silva Cabett,
empresária, transplantada.

Kaick Toagli, 24 anos, criador digital formado em Rádio e TV, de São José dos Campos, conta que também teve um pós-operatório delicado. Em 2011 ele fez o primeiro transplante de córnea e no ano seguinte fez o segundo. “Depois da cirurgia é preciso retirar os pontos. A retirada vai garantir o grau do óculos, como se ele fosse ‘ajustado’. Cada mês retirava um ponto, foram 16 pontos em cada olho. […] Quando os pontos soltavam eu ia correndo para o hospital retirar. Pense em um grande cisco que não sai do seu olho”, conta Kaick.

Mesmo com todas as dificuldades, Kaick conta que sua vida ficou muito melhor com ‘os novos olhos’. Ele tinha uma doença chamada ceratocone que forma uma camada em forma de cone no globo ocular. Antes da cirurgia, ele utilizou diversos tipos de grau e tentou até mesmo lente de acrílico, mas nenhum dos tratamentos solucionou o problema na visão e as fortes dores de cabeça.

“Eu já estava com um grau muito forte e não estava sendo o suficiente pra minha visão. O grau era tão alto que não consegui usar. Tentei usar lente de contato de acrílico, mas ela não funcionou. Precisa encaixá-la direitinho no olho, e nenhum teste aprovou”, relata.
Foi então que, quando tinha cerca de 17 anos, ele foi encaminhado para o transplante de córneas. Kaick conta que hoje tem uma visão muito melhor, ainda tem um pequeno grau, mas é tão pequeno que ele não precisa usar óculos em todas as atividades do dia a dia.
Hoje ele trabalha com audiovisual e afirma que não conseguiria realizar esse sonho se não fosse a solidariedade de uma família autorizar a doação de órgão para que ele recebesse novas córneas.

“Se não fosse o transplante, não teria como eu trabalhar com o que eu sempre sonhei. Como iria trabalhar com audiovisual sem enxergar?”, diz Kaick.

A Cirurgia de Transplante
A cirurgia de transplante é feita em último caso quando se esgotam as possibilidades de tratamentos a base de medicamentos e outros procedimentos médicos. O doutor Itamar Coppio explica que o transplante é uma cirurgia muito delicada, por isso só é prescrito em último caso.

“É uma solução terapêutica, colocada à disposição do paciente quando todas as questões de tratamento foram esgotadas. Por exemplo, no caso de problemas nos rins, é possível fazer a hemodiálise, mas quando nem esse tratamento é o suficiente para a saúde, aí é orientado a fazer o transplante. O fígado é mesma coisa, é um órgão vital. Quando não tem mais o que fazer, chega um ponto que o órgão está em uma situação final de sobrevida. Aí nós orientamos o transplante”, afirma Dr. Itamar.
Diagnosticada a necessidade do transplante ser realizado, o paciente entra em uma fila de espera que leva em consideração o órgão necessário, tipo sanguíneo e gravidade da doença.

Quando o potencial doador é identificado, as equipes médicas envolvidas são informadas – do hospital onde acontecerá a retirada do órgão e o que irá realocá-lo. Uma série de exames é feita para verificar a viabilidade do transplante.

Depois disso, o paciente que receberá a doação faz pré-operatório e fica preparado para entrar em cirurgia. Em paralelo a cirurgia de remoção é iniciada. Quando o médico responsável por esse procedimento avalia a saúde do órgão como positiva, a cirurgia de remoção do órgão doente no paciente de destino é iniciada no outro hospital.
Todo esse alinhamento é necessário porque existe um tempo limite que cada órgão pode ficar fora do corpo e continuar viável para doação – esse limite é chamado de tempo de isquemia. No caso do coração, por exemplo, há apenas quatro horas para ser transplantado.
“É avisado ao paciente para ficar no hospital preparado para receber a doação. Aí nos ficamos aguardando um sinal do doutor que está fazendo a remoção para ver se o órgão é viável. Quando temos esse aviso, nós encaminhamos o paciente para o centro cirúrgico. Quando chega no hospital, o órgão é preparado e adaptado para a recolocação”, explica Dr. Itamar.

Quem faz todo o processo de transplante, incluindo a retirada, transporte e realocação do órgão, é uma equipe médica especializada treinada pelo OPO (Organização de Procura de Órgãos) – no caso da RMVale, a referencia é o Hospital das Clínicas de Campinas que abrange 129 municípios do interior paulista.

Outra coisa a se atentar, é que uma pessoa pode ser doadora para diversas outras. Por isso, as equipes, cada uma responsável por um órgão, são acionadas e alinhadas com o processo de transplante para cada paciente.

A lei brasileira favorece essa logística. Quando um órgão precisa chegar a um paciente por via aérea, por exemplo, a pessoa que está fazendo o transporte pode “furar a fila” no aeroporto e pegar o próximo voo para a cidade destino.

Órgãos que podem ser doados
De acordo com o Ministério da Saúde há sete órgãos que podem ser doados, cada um com sua particularidade, como o tempo de isquemia por exemplo. Alguns têm apenas uma finalidade específica de substituição de órgãos falidos, como coração, rins e pulmão. Outros têm função de apoio como o transplante de pele e ossos que são usados em tratamentos de queimados e reconstrução de fraturas.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here