Especial& – Aplausos para os curados

A vitória de quem conseguiu superar a doença que tem matado milhares de pessoas no mundo

No Brasil, 26,5 mil pessoas foram curadas após contrairem Covid-19. Em São José dos Campos, a maior cidade do Vale do Paraíba, 85 pessoas receberam alta até o dia 25 de abril. Mas passar pelo medo, pelos sintomas severos ou brandos, pelas estatísticas, pelo isolamento total não é nada fácil. Muitos são os relatos dramáticos de quem sentiu na pele o vírus que já causou também milhares de mortes em diversos países.

Nos hospitais e em outras unidades de saúde, há o heroísmo de profissionais da área médica e da enfermagem que travam uma batalha para cuidar e salvar pacientes. Situação vista com frequência nos últimos dias. Mas nem mesmo eles, estão livres de serem contaminados nos momentos em que estão sem a proteção. Assim foi com a médica anestesista Adriana Azevedo Lami que contou em detalhes numa entrevista exclusiva, tudo que passou ao contrair Covid-19. Foram dias de muito sofrimento, mas também de muita fé. Um agradecimento de quem sobreviveu após dias internada numa UTI.

“Descobri que estava com coronavírus, depois de alguns dias de internação, até então eu tava fazendo o tratamento sem ter certeza. Primeiramente eu comecei a ter tosse seca, só isso durante três dias, continuei trabalhando normalmente. Depois desses três dias, comecei a ter perda de olfato, perda de apetite, dor no corpo, obstrução nasal, dor de cabeça intensa, uma sonolência muito grande também. No sexto dia de sintoma, eu comecei a ter cansaço, tipo para tomar banho, pra vir até à cozinha. Mas não era uma falta de ar.

Depois de sete dias,  já estava fazendo isolamento orientado por um colega médico, como eu não tinha nenhum sintoma respiratório, não iriam fazer o teste em mim. Aí como comecei a ter essa falta de ar, procurei o hospital e já fui imediatamente tratada  como suspeita de Covid”.

Adriana fez então o teste, além de coleta de secreção nasal e exame na faringe. Depois de sete dias internada, teve a doença confirmada. Fez tomografia do tórax e estava com sinais de pneumonia, característicos de coronavírus.

“Aí já iniciei o tratamento com antibiótico e em casa porque eu estava bem, só que dois dias depois eu comecei a ficar com mais falta de ar, aí voltei para o hospital, fiquei internada e iniciei a oxigenoterapia. No decorrer do dia, comecei a ter uma piora, desconforto respiratório, aí acharam melhor me transferir para a UTI da Santa Casa. No total deu dez dias de UTI.

Eu não sei onde eu peguei essa doença, pode ter sido num almoço que eu fui antes de todo esse processo do isolamento, eu soube que três pessoas que tiveram lá também, tiveram Covid. A dona da casa teve bem depois, mas teve também. Não dá pra saber, eu trabalho no hospital, numa clínica e passam muitas pessoas assintomáticas.

Na UTI eles já mudaram de antibiótico e entraram com a Cloroquina, não lembro se no quinto dia de UTI, mas com tudo monitorado, a função cardíaca, tudo direitinho.

O que piorou também o meu quadro, foi que eu tenho asma. Eu nunca tive uma crise severa, mas devido à pneumonia, eu acho que piorou tudo, aí desencadeou uma crise muito grave de asma e por isso que eu quase tive que ser entubada, mas graças a Deus não precisou.

Na UTI é tudo muito difícil, mas eu sabendo de tudo que podia acontecer como médica, a situação é mais complicada ainda. Você fica em isolamento total, eu não podia ter celular, não podia falar com ninguém da minha família, ali dentro todo mundo mascarado da cabeça aos pés para proteção. Eu só pensava em respirar, foi muito angustiante. Eu perdi as minhas forças. Aí é que entra a ajuda da enfermagem que foi fundamental para mim. Se não fossem eles, eu não faria nada, eu não conseguia virar na cama, eu não tinha força. Ali na UTI, para quem acredita, eu vi que tinham alguns anjos que seguravam na minha mão, nos momentos que eu mais precisei para não me deixar cair. Você tem  muita dor, toda hora tão colhendo exames, você sente frio, não pode cobrir muito você porque está tendo febre. É só quem passa pra saber.

Depois, na enfermaria, foi mas fácil porque eu pude ficar com o celular para entrar em contato com a família, com os amigos, eu sei que com certeza também foi o amor, foram as orações, o carinho, o pensamento positivo, reza e velas, de pessoas que eu nem conheço que estavam torcendo pela minha cura, pela minha melhora. Isso me ajudou demais.

Depois que eu tive alta, o médico orientou para eu ainda fazer mais cinco dias de isolamento, não pelo fato de eu contaminar alguém mas para a minha proteção também, pois tô fragilizada, com a imunidade baixa, e eu não posso pegar nenhuma infecção. Aqui na minha casa somos só eu e meu marido.  Ele também pegou, mas de uma forma branda, já fez o teste e está resistente, então pode me ajudar. Mas eu não tô saindo de casa e nem vou sair até quando for possível, jamais quero pensar em passar isso para alguém. Em casa eu continuo só com medicações para asma e fisioterapia respiratória porque eu tô bem cansada para fazer atividades.

Eu peço que as pessoas não baixem a guarda, se agora acabar essa história de isolamento procurar sair menos de casa possível, só o necessário , continuar pensando que tá em isolamento e manter as medidas de higiene é fundamental. Saiu de casa, voltou, toma banho. Lava as mãos com água e sabão, se tiver álcool em gel melhor, o idoso se puder ficar em casa, não sair mesmo, evitar crianças visitarem avó e avô. Proteção, só isso que podemos pensar, é continuar se protegendo”.

Histórias como esta da Adriana,  é mais uma acompanhada pelos profisisonais da Santa Casa de São José , como em outros lugares do país e do mundo. Pacientes que sobrevivem e têm a chance de voltar para casa curados, são aplaudidos, como mais um guerreiro que venceu a luta. Com ela não foi diferente, uma saída emocionante com sensação de renascimento.

A missão de salvar vidas

A gerente-executiva assistencial da Santa Casa de São José dos Campos, Lucimara Aparecida da Silva, relata como foi a preparação para atender a nova demanda que estava surgindo e como têm sido os trabalhos até aqui.

“No início da pandemia, os profissionais de saúde estavam bem angustiados com a situação, nós estavamos em busca do que fazer, qual seria a melhor estratégia. Todos buscando estudar, buscando fluxos, buscando se organizar pra atender os pacientes, foi um ambiente bem inseguro pra gente, desconhecido na realidade. Com a ajuda de toda a equipe, com a união, nós fomos buscando esses instrumentos, atualizando conhecimento. Nós fizemos uma UTI de dez leitos e mais 33 leitos de internação para esses pacientes. A partir do momento que começamos internar e a trabalhar com esse tipo de paciente, veio a experiência com eles, as pessoas foram entendendo como seriam esses trabalhos e a partir daí a gente foi ficando mais seguro”, conta.

Ela diz ainda como os profisisonais de saúde se previnem.” A Santa Casa tem oferecido equipamentos de proteção individual, nós estamos ainda conseguindo comprar, temos um estoque aqui para atender o nosso público interno, nossos colaboradores. Todos com  equipamentos completos. Nós fizemos treinamento de paramentação e principalmemte desparamentação, que é onde mais ocorrem os contágios”, afirma.

“O momento certo de procurar o médico é quando o paciente sente que não está bem. Nós tivemos um médico que estava com 37,5 de temperatura, não estava bem e no dia seguinte ele já estava na UTI. Esse momento certo, é de pessoa pra pessoa, é difícil você determinar. ”

Lucimara Aparecida da Silva,
Gerente-executiva assistencial da Santa Casa de São José dos Campos

Ela orienta vigilância sobre os sintomas. “O momento certo de procurar o médico é quando o paciente sente que não está bem. Nós tivemos um médico que estava com 37,5 de temperatura, não estava bem e no dia seguinte ele já estava na UTI. Esse momento certo, é de pessoa pra pessoa, é difícil você determinar. Todos os pacientes que passaram por aqui suspeitos de Covid, nós fizemos o teste. A Santa Casa comprou esse teste de um laboratório particular e a gente tem feito aqui nos nossos pacientes”.

Quando questionada sobre o isolamento, Lucimara opina: “Nós entedemos sim, que o isolamento faz parte do processo e é muito importante. Profissionais da saúde não entram nesse quesito, porque nós precisamos sair para vir para o hospital, para atender. Porém é esse trajeto que nós estamos fazendo. Indo também de encontro ao que toda autoridade do país está pedindo”.

Perguntamos também sobre o perfil de quem mais tem procurado atendimento:  “Os pacientes que nós recebemos aqui na Santa Casa são a maioria relacionados ao sintoma respiratório, paciente chega com  tosse, coriza, dor no corpo, febre e dificuldade para respirar. Sintomas clássicos que a gente tem recebido aqui. O caso mais impactante que nós tivemos, foi uma paciente de 45 anos  com câncer de mama, que infelizmente contraiu Covid e foi a óbito. Hoje nós temos três pacientes internados, porém todos suspeitos, não temos nenhum confirmado. Até o momento nós tivemos 20 pacientes internados na Santa Casa e desses, 8 haviam sido confirmados”, finalizou.

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