Entrevista – Ministro da Educação Abraham Weintraub

Abraham Weintraub, ministro da Educação, apresenta as mudanças que fará na Política Nacional de Alfabetização e os desafios a serem enfrentados pela pasta

Alfabetização como prioridade e respeito a instituição familiar como base do processo educacional

Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub tem 48 anos, é graduado em economia pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre 1994 e 2014, atuou no mercado financeiro, tendo passado pelo Banco Votorantim e por uma corretora de investimentos. Nos últimos anos, já como professor da Unifesp, se debruçou especialmente sobre o tema da Previdência, tendo dirigido o Centro de Estudos sobre Seguridade (CES). Integrou a equipe do governo de transição como secretário executivo da Casa Civil e foi nomeado ministro da Educação, em abril de 2019, pelo presidente Jair Bolsonaro para o lugar de Ricardo Vélez Rodríguez. Em entrevista exclusiva para a Metrópole Magazine, que foi a Brasília, no dia 12 de dezembro, Weintraub apresenta um balanço sobre seus oito meses a frente do Ministério da Educação e as prioridades da pasta para 2020.

O senhor colabora com o governo Bolsonaro desde a elaboração do plano de governo, antes de sua eleição. Que orientação recebeu do presidente ao assumir a pasta?
▸ Estou com o presidente Bolsonaro há quase três anos. O plano de governo que o elegeu saiu daquele notebook ali. Então, já conhecia as linhas gerais, o compromisso que a gente havia assumido, não somente na área de educação mas em todas as áreas do governo. Participei de forma íntegra. O plano realmente saiu do meu computador, escrevi uma boa parte e outra digitei. Óbvio que o Paulo Guedes falou as linhas gerais, várias outras pessoas participaram, mas participei intensamente da elaboração do plano de governo do presidente Bolsonaro. Me vejo como um coringa, fui o secretário-executivo da transição do governo e depois secretário-executivo da Casa Civil. Quando surgiu o problema no Ministério da Educação, com o Vélez, o presidente me chamou e falou: “E aí, você topa?”. Ele estava mais preocupado porque sabia que seria um trabalho hercúleo. Falou o seguinte: “Abraham, eu estou te convidando porque eu não gosto de você. Vai pagar todos seus pecados em vida e mais alguns das próximas”, brincando, óbvio. O desafio é gigantesco. A recomendação que ele me deu foi fazer o que tem que ser feito. “Vai lá e arruma. É carta branca”, disse. O presidente é um ótimo chefe, cobra, mas dá liberdade e aponta as linhas gerais.

Qual o principal problema a ser enfrentado na Educação? Após 8 meses a frente do ministério o senhor continua acreditando que o “marxismo cultural” é um dos grandes algozes do processo educacional vigente?
▸ É a conjunção de duas coisas: a principal, esta mentalidade totalitária de esquerda que quer, sim, doutrinar e escravizar. Me explica porque a gente mantém um método de alfabetização, mantiveram porque mudamos em abril e no começo do ano vamos implementar um novo método. Por que a insistência em louvar, endeusar um método de alfabetização que não funciona comprovadamente? Depois de 16 anos elegendo PT, PT, PT, PT o que a gente tem? 50% das crianças no Brasil no terceiro ano do ensino fundamental completamente analfabetas. Não conseguem ler. Será que é apenas incompetência ou existe o desejo profundo de não dar liberdade de pensamento para as futuras gerações, para os brasileiros poderem ler, escrever, fazerem contas, poderem se desenvolver, com um ofício, uma renda. Então porque insistiram em um método desse? Será que é só incompetência? Eu tenho dúvidas. Ao meu ver pode ser, sim, uma coisa mais profunda. E desse grupo que chega ao final do ensino médio, grande parte analfabeto funcional, alguns poucos conseguem entrar nas federais e enfrentam aí uma doutrinação profunda. É a forma do totalitarismo de esquerda. Do outro lado, há grandes grupos empresariais, que estão tentando fazer do Brasil mais um ‘campeão nacional’. ‘Campeão nacional’ como aquele termo pejorativo. Lembra da Odebrecht? A grande empresa que faz construção no Brasil todo, no exterior. Lembra da JBS? Antigamente havia um monte de frigoríficos, hoje tem a JBS. Então você faz o ‘campeão nacional’ com o dinheiro público, um subsídio, e cria mais um trilhardário no Brasil. Um relacionamento incestuoso com o Estado. Havia, sim, muitos movimentos aqui no ministério para se criar mais um ‘campeão nacional’ na área de ensino privado, nas faculdades no Brasil. Vencer este jogo de interesse financeiro e seu relacionamento incestuoso com o movimento político totalitário de esquerda. Esse é o meu desafio.

 

E nesse aspecto, ministro, como o senhor tem trabalhado a Base Nacional Comum Curricular? Há estudos para modificação ou o senhor acha que ela tem que terminar?
▸ Sou contra a BNCC, mas ela já foi aprovada, então a gente tem que cumprir e seguir adiante. É muito trabalho como a gente sempre faz, respeitando as leis e fazendo o que é possível ser feito.

O programa de governo do presidente Bolsonaro fala do problema da disciplina nas escolas. Quais são as medidas para enfrentar a questão? A opção pelo Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares é a solução?
▸ Não existe bala de prata. Como você conserta toda essa destruição de valores, de referências, do tecido social que aconteceu ao longo desses anos todos de PT? Como você liquida a epidemia de drogas que temos no Brasil? Não tem uma bala de prata. A escola cívico-militar é um caminho. Sim, você vê a melhora no rendimento escolar, na segurança das crianças, na depredação da escola. Para melhorar o ensino precisamos ter uma nova matiz de valores. Veja os critérios científicos que utilizamos para alfabetização, a Política Nacional de Alfabetização, que apresentamos em abril e vamos começar a implementar ano que vem. Ao invés de ficar nessa educação do oprimido, onde a criança vai sentir por meio das suas interações sociais e vai aprender a ler sozinha, algo errado, sem eficácia, vamos aprimorar o processo de alfabetização. O que dá certo na Europa? O que dá certo na América do Norte? O que dá certo em países que têm um bom desempenho? Portugal era o pior país da Europa e hoje é o segundo melhor. Trouxemos o ministro responsável pela área de ensino em Portugal aqui, ao longo deste ano, para orientar os secretários estaduais e municipais a adotar a nova Política Nacional de Alfabetização. Se a pessoa não consegue ler o que está na lousa, é óbvio que ela vai fazer bagunça. Ela é analfabeta, como vai conseguir passar de quatro a cinco horas dentro da sala de aula sem entender o que está no quadro? O que ela vai fazer lá? Vai fazer coisa errada. Então você cria valores, que é a literacia familiar. O que é a literacia famíliar? Estamos enviando material para os pais lerem com os filhos. A classe média alta, já faz isso. Você pega um livrinho, coloca seu filho ao lado, e conta uma historinha. Não precisa nem ler às vezes. Como é que faz com analfabeto? Ele vê as figuras e vai conversando, porque o livro tem que ser um amigo e a criança e os pais têm que perceber que a base da sociedade é essa unidade familiar. A leitura em família, mais do que ensinar a ler e escrever é a reconstrução do carinho que tem que haver entre pais e filhos. Esta união foi, sim, atacada. Na bíblia profana dos comunistas, que se chama “O Capital”, de Karl Marx, está escrito várias vezes “a família é inimiga”; “a gente precisa acabar com a família”, que “enquanto não acabamos com a família as pessoas sempre vão tentar voltar para a situação anterior”. O que nós estamos tentando fazer é resgatar o óbvio. Que a família é a base da sociedade, é a responsável pela educação da criança. E as crianças são enviadas, já previamente educadas, em tempo de construção de caráter, para na escola serem ensinadas a ler, escrever e fazer conta.

Já há plano para o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica que vence agora em 2020?
▸ Sim. Esse ano inteiro tentamos conversar com a Professora Dorinha Seabra, deputada relatora da PEC do Fundeb. As conversas não seguiram no ritmo que a gente imaginou e no começo do ano que vem, vamos enviar um Projeto de Emenda Constitucional, uma PEC, para aumentar e melhorar o dinheiro federal que vai para as cidades e municípios para a educação fundamental.

E qual é a grande mudança nesse projeto?
▸ Vai ter mais dinheiro, mas também maior cobrança por desempenho. Não é mais dinheiro a fundo perdido. Estados e municípios que forem melhores receberão mais dinheiro. E não é ‘performar’ de ter nota mais alta, é melhorar o desempenho. Se você está muito ruim e melhorou recebe. Se você está mais ou menos e piorou, a gente vai perguntar o que está acontecendo e cobrar que seja encaminhado.

Essa questão da exigência da aplicação dos 25% dos orçamentos municipais na educação, não tem criado alguns ‘elefantes brancos’ devido a falta de planejamento e capacitação dos municípios para aplicação destes recursos? Não é o momento do ministério levar essa discussão para o Parlamento, tentando ampliar a aplicação destes recursos na inserção de atividades culturais e esportivas como estímulo ao contraturno escolar?
▸ É uma discussão muito profunda. Sou a favor de mais liberdade para os prefeitos. Sugeri várias coisas aqui e me trouxeram exemplos práticos que algumas cidades, principalmente no Nordeste não estão preparadas, pois tem prefeito que se você dá mais liberdade a criança morre de fome e de sede. Precisamos rediscutir muita coisa no país. Esse é um dos assuntos. Em tese, as pessoas da cidade e as pessoas dos estados escolhem o destino delas. Quando os eleitores de um estado do Nordeste decidem votar em uma governadora ou governador de esquerda, que odeia o governo federal e fala “Não quero escola cívico-militar aqui”, eu como ministro não tenho como contornar o fato político. Quem escolheu o governador foram os habitantes daquele estado. Então, veja, é uma discussão profunda. O que nós fazemos com um estado que elege duas, três vezes projetos equivocados de governo? Pessoas totalmente inaptas ou ‘ladrões’ que quebram o estado? Deveríamos repensar isso.

Essa discussão entra no projeto que vai ser encaminhado do Fundeb ?
▸ Não. A PEC do Fundeb já está pronta, redonda para mandar e por para rodar. O Brasil é um país funcional, ele não é disfuncional. O que a gente faz com as exceções? Essa é uma sugestão que tenho pensado.

Como o senhor avalia a primeira edição do Enem sob sua égide? É um método adequado em sua avaliação? O presidente Bolsonaro pretende manter o exame nos próximos anos?
▸ Esse Enem… não sou eu que estou falando, foi o melhor de todos os tempos. Até um jornaleco, que fala mal de mim todo dia e pede minha cabeça em toda edição, falou “foi tão bom, foi tão bom, foi tão bom, que foi tão bom por acidente”. Isso é sério, estava no editorial deles, no que pede a minha cabeça. Teve outro jornaleco que falou: “Mas faltou questões da ditadura.” Então, em termos de conteúdo foi o melhor. Em termos de falhas, praticamente não tivemos nenhuma. De operação de gestão, de custo, excepcional. Afirmo: foi o melhor de todos os tempos. Se tivesse em 2012, 2011, um Enem melhor, todos os jornalecos, inclusive a Rede Globo iriam colocar o Enem de 2011 comparado com o último e falar: “Na gestão do Haddad foi muito melhor”. Isso não aconteceu. Foi o melhor de todos os tempos e o ano que vem vai melhorar ainda mais, porque a gente vai começar a fazer gradualmente a transição para o Enem Digital. Quem quiser fazer no papel, continua fazendo, mas quem quiser participar já do piloto, o ano que vem vai poder marcar e fazer a prova num computador com reconhecimento biométrico com toda a segurança. A expectativa é que até 2026 o Enem do Brasil inteiro seja digital e é também por isso, entre outras coisas, que a gente já contratou e está começando a instalar internet banda larga para todas as escolas públicas do Brasil. As escolas públicas urbanas do Brasil, no começo do ano que vem, estarão com internet banda larga e metade das escolas rurais via satélite vão ter internet também. Como eu faço capacitação de professores, como eu faço o treinamento de professores para a nova Política Nacional de Alfabetização, que a gente falou, sem internet? É impossível. Como vou começar a implementar exames nacionais dos alunos para saber qual aluno está indo mal? Para tentar resgatar o aluno individual que está indo mal. Ou, quando a classe inteira vai mal, o professor precisa ser resgatado. Como eu faço isso sem ter um exame? Não existe! Tudo isso começa o ano que vem.

Como o senhor vê o Conselho Nacional de Educação hoje? É um parceiro da sua gestão ou um entrave?
▸ Não quero “fulanizar”. Vou passar um quadro que é mais dramático: Imagine uma estrutura monstruosa, 300 mil funcionários públicos. Esse é o MEC (Ministério da Educação). Metade dos servidores federais na ativa estão aqui no MEC, estou sentado em cima deles. Um aparato gigantesco. E esse gigante atende menos de 20% das pessoas, que são as que estão em faculdades públicas, 80% faz faculdade privada. Esse aparato gigantesco, mais essas universidades privadas não tinham uma estrutura, não foram construídas para entregar um bom ensino para a população brasileira. Tinham outros interesses. Quais eram os interesses? De doutrinação, sim. Não funcionou. Em 2018, o último ano da Dilma/Temer, foi feito o exame mundial para medir o conhecimento dos alunos no mundo inteiro. O Brasil ficou como o pior país da América do Sul. O pior. O que eles fizeram não foi para atender a população e as famílias brasileiras. E há também um outro grupo que está querendo fazer o monopólio da educação e do ensino no Brasil. Resumidamente é esse o desafio que eu tenho com o Conselho. Vamos expandir o ensino técnico em 80%, estamos ampliando em 500 mil vagas o ensino em tempo integral. Como eu falei a escola-cívico militar, nova política de alfabetização, leitura em família, creche, pré-escola, o Future-se para o ensino superior, conectar todo mundo, fazer o Enem Digital, fazer a carteirinha digital, fazer o diploma digital para diminuir fraude, diminuir custo, agilizar para quem precisa tirar um diploma.

Qual é o plano para as universidades federais? O ProUni e o Fies continuam sendo prioridades desse governo ou eles serão revistos?
▸ A gente tem que rever porque foi um fracasso o financiamento estudantil. Estamos mantendo a estrutura, os pagamentos para não cortar, mas foi um grande fracasso. Qual o resultado? Metade de todos os financiamentos está inadimplente. 500 mil brasileiros jovens estão inadimplentes com nome sujo. Então isso é um imenso fracasso. Nós estamos pensando em como reverter isso, como limpar o nome desses jovens. Estou conversando com as universidades privadas também. Sem concentração, sem as grandes corporações. Para quem está buscando solução vamos ajudar.

O programa Educação em Prática é uma das grandes apostas de sua gestão. O senhor acredita que os alunos do ensino básico, tendo acesso as instituições de ensino superior, serão motivados a melhorarem seus desempenhos conhecendo com mais propriedade suas habilidades?
▸ Não tenho a menor dúvida até para escolher uma carreira. Eu por exemplo queria ser químico. E aí, quando eu tinha uns 14 anos, fui a uma faculdade de química, falei: “não quero”, “vou fazer engenharia química.” Fui a uma faculdade de engenharia química e acabei fazendo economia. Então o fato de você olhar, ver, conhecer, facilita muito o seu processo, de escolha de amadurecimento.

Que legado o senhor gostaria de deixar no final de seu exercício como ministro da Educação do Brasil?
▸ Assim como me comprometi este ano, falei: “olha, não haverá corte e contingenciamento. Os grandes veículos de comunicação estão mentindo. Vai passar a Previdência, vamos nos recuperar e soltar os recursos em setembro”. Disse isso, me comprometi pessoalmente, expus a minha cara. Foi cumprido. Soltamos tudo e ainda demos mais R$ 125 milhões. Da mesma forma como esses mesmos veículos mentirosos, oligopolistas, são famílias que dominam o Brasil há muitos anos e ficaram mentindo o ano inteiro, falei: “vai ter Enem, eu me comprometo pessoalmente que haverá Enem este ano” e houve o Enem e foi o melhor de todos os tempos. Estou me comprometendo aqui {o ministro aponta para uma edição da Metrópole Magazine}, no próximo Pisa, que vai ser em abril de 2021, com os resultados divulgados em 2022, vamos mostrar uma inflexão. Nós não mais estaremos no último lugar da América do Sul. Esse é o meu compromisso e será o meu legado.

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