Entrevista: Felicio Ramuth – Administrar em meio à crise do coronavírus

A gestão de um município de 720 mil habitantes como São José dos Campos requer muito planejamento, trabalho e cálculos, isso quando a economia, a rotina e as atividades seguem num fluxo mais previsível. Mas quando surge uma pandemia mundial em que tudo precisa ser revisto, replanejado e recalculado? A queda de arrecadação do município chega a R$ 110 milhões até agora, que segundo a prefeitura foi possível cobrir com uma reserva de caixa do ano anterior.

A responsabilidade do administrador aumenta, ser prefeito nessas condições é uma prova de fogo, um desafio do tamanho da cidade, onde muitas vidas dependem de decisões do poder público e não só de controle sanitários, atendimentos médicos e da própria saúde.

O mês é de comemoração, mas a festa terá que ser tímida diante de tantas restrições, cobranças e ações. Em uma conversa virtual, o prefeito Felicio Ramuth conta como tem sido o dia a dia dele como gestor, a expectativa pela retomada de atividades e o adiamento das eleições.

Metrópole- Do seu olhar como gestor, como tem sido esse momento, esse desafio de estar gerindo uma cidade diante de tantas dificuldades enfrentadas em uma pandemia mundial?

Felicio- Um desafio único, nunca imaginaria que seria um prefeito lidando com uma pandemia. De fato é uma responsabilidade muito grande, menos horas de sono posso garantir, mas eu tenho uma boa equipe, o nosso comitê de enfrentamento tem feito um grande trabalho ao mesmo tempo que a nossa Secretaria de Administração e Finanças, porque essa balança precisa permanecer ativa, temos que manter os compromissos em dia. As receitas caíram demais, então tem que olhar esses dois lados, cuidar da vida das pessoas, cuidar das finanças do município, é um momento crítico para a cidade, para o país e para o mundo. Eu tenho o apoio da minha família, da minha esposa, para que com toda essa responsabilidade a gente faça as melhores escolhas. Nessa pandemia eu costumo dizer que tudo se cogita e nada se confirma, ninguém tem certeza de nada, então a gente tem que se cercar do maior número possível de informações para tomar as decisões corretas e claro pedir a ajuda de Deus para passar por esse momento também da melhor forma possível.

Metrópole- A gente vê muitos empresários falando de dificuldade econômica, principalmente entre os setores que estão restritos a trabalhar nesse período, como a prefeitura vai atuar para evitar o desespero junto às empresas?

Felicio- É uma situação gravíssima, para esses empreendedores como salões de cabeleireiro, restaurantes, academias, setor de eventos, setores que estão sofrendo mais que outros na cidade, a cada dia a situação fica mais crítica a esses empreendedores, eu lamento, se dependesse de mim, acho que a gente poderia retomar as atividades. Sugeri ao sindicato de bares e restaurantes entrar com uma ação na justiça pedindo reabertura baseada nos números, indicadores que nós mesmos podemos apresentar, que indicam que é possível fazer uma reabertura com responsabilidade. Me reuni com o setor, temos uma comissão ligada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico trabalhando para ajudar esses empreendedores, mas lamentavelmente a justiça não permitiu que São José estivesse baseada em seus números, eu dependo do Governo Estadual, isso até o Supremo Tribunal Federal já viu. Cada óbito tem que ser lamentado e eu me solidarizo com cada família, cada história de vida, mas se a gente for comparar com as maiores cidades do estado de São Paulo acima de 400 mil habitantes, São José é a cidade que tem o menor número de óbitos por habitantes. Espero que a gente possa avançar para a fase amarela e mesmo com o Plano SP sendo a cada catorze dias, vou solicitar ao governo para que ele possa ser também semanal, principalmente em uma região como a nossa que existe a possibilidade de ser avaliada semanalmente.

Metrópole- Como está funcionando o Hospital de Retaguarda inaugurado recentemente, está recebendo também pacientes com Covid?

Felicio- Logo no início da pandemia eu fui cobrado para construir um hospital de campanha, mas aí o recurso vai embora e eu sempre insisti que colocaria todo o recurso em um legado que ficasse para a cidade. Ampliamos o Hospital Municipal, recebemos equipamentos de doação da Embraer para fazer a filtragem do ar, fizemos mudanças nos protocolos das UPA’s. Uma grande obra com 70% de investimento da iniciativa privada e esse hospital passa a ser o novo pronto-socorro municipal. Os pacientes da ala pediátrica sem ter Covid é que são transferidos, o pronto-socorro infantil também vai ser no local, já os pacientes com Covid vão permanecer no Hospital Municipal, mas com esse espaço que a gente ganha, amplia 36 leitos.

Metrópole- Em relação às outras obras que estão em andamento ou que recém foram inauguradas como o Arco da Inovação, que a gente vê que ainda falta o acabamento, como está a situação delas?

Felicio- Agora temos a fase final do Túnel do Gás na região Leste da cidade, que já foi até liberado parcialmente e deve ser entregue de forma definitiva até o começo de agosto, depois nós temos a ligação do “Envagélicos com a Salinas”, com a liberação também até a primeira quinzena de agosto, que é uma obra na zona sul importantíssima, o paisagismo e plantio de grama no Arco da Inovação, a grande ciclovia que vai ligar a região Sul à região Oeste da cidade, a ciclovia da Dutra… são muitas obras acontecendo ao mesmo tempo, além das obras na área de educação, e entregamos também uma UBS no Jardim Detroit.

Metrópole- A gente tem acompanhado o retorno das aulas no sistema à distância para os alunos, mas presencial para os profissionais da Educação, que fizeram protestos quanto ao risco da doença sem o isolamento, como a prefeitura tem administrado isso?

Felicio- A nossa equipe foi entregar material de casa em casa na área rural, a grande parte dos professores voltou a trabalhar com alegria, satisfação, mas uma parte deles, que eu respeito, voltou com medo que é natural, mas todos os servidores do município têm que se tratados com o mesmo critério e a prefeitura não fechou nenhum serviço na pandemia pois muita gente não tem internet, até a oposição entrou na justiça para fechar o Paço Municipal, o Procon, mas perdeu. Todos os professores retomaram seus trabalhos com todos os cuidados, eu agradeço todos os servidores que têm se esforçado ainda mais nesse período.

Metrópole- Houve ainda o adiamento do período eleitoral, como o senhor recebeu essa notícia, gostou levando em conta a sua vontade de disputar a reeleição?

Felicio- Eu gosto sempre de deixar claro, que o meu papel agora é ser gestor público, é ser prefeito e eleição eu deixo para pensar no último dia. A gente teve até pré-candidatos se lançando à candidatura e eles estão certos, pois eles não são prefeitos e não tem uma cidade para administrar. No momento eu tenho, compromissos para entregar, meu foco é na gestão. Mesmo com a pressão eu ainda não me oficializei como candidato a prefeito. Do ponto de vista das cidades, eu achei uma irresponsabilidade.

Imagine se eu estivesse nesse momento, disputando eleição como eu disputei com a minha oposição e tivesse ganho em novembro, eu teria 15 dias para montar a minha equipe, fazer a transição de governo, assumir uma cidade com 300 milhões de dívida como deixaram pra gente, fazer tudo isso antes do Natal e do Ano Novo e no dia primeiro começar a administrar, impossível. Empurrar as eleições para frente é uma irresponsabilidade com as cidades, principalmente naquelas em que há a troca dos prefeitos. Acho que isso vai prejudicar muito durante 4 anos inclusive, teria que ter um protocolo de segurança para fazer a eleição e esticar o dia de votação. Claro que do ponto de vista de quem já está na prefeitura, permanecer a data de outubro facilitaria a eleição, porque teria menos tempo de exposição para os candidatos que não estão, foi melhor porque ainda posso entregar obras sem estar no periodo eleitoral. Eu não poderia estar fazendo as lives ou falando com o Meon nesse momento, então eu tenho muito mais oportunidade de encerrar as obras e entregar nesse período.

Metrópole- Como está a relação da prefeitura de São José dos Campos com os governos Estadual e Federal?

Felicio- É uma relação muito boa, eu tenho sempre que pensar na cidade e me aproximar independentemente de partido, pra mim esse é o menos importante. Eu preciso agir para ajudar o Estado, para que o estado ajude a cidade e a região. Que a gente possa realizar as obras necessárias e prestar o melhor serviço à população.

Metrópole- Como tem sido lidar com as cobranças que são feitas neste momento, a gente vê que tem gente apoiando a administração e outras reclamando. Como lidar com essa cobrança popular?

Felicio- É natural para qualquer pessoa que queira se candidatar a prefeito. Acontece que na pandemia isso aumentou um pouco, se amplificou, tem um pessoal que participa mais seja positivamente ou negativamente. Mas o que eu sempre recebo com muito carinho e cuidado são as críticas construtivas, essas devem ser feitas, é importante para que a gente possa melhorar a cada dia. O que a gente não pode confundir é com essas opiniões de “especialistas” que apareceram nessa pandemia, de médicos que nunca foram médicos, com esse monte de certezas para passar. A grande verdade é que a gente tem que escutar sim, o maior número de pessoas e tomar a atitudes dentro do que os nossos profissionais orientam com muita responsabilidade, dentro do comitê de enfrentamento.

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