ENTREVISTA – Economia X Saúde

De um lado, o discurso da reto­mada imediata da economia, dando garantias de que a saú­de pública consegue suportar a demanda de novos casos de Covid que venham a surgir, do outro a preo­cupação excessiva com a saúde, com a prevenção, diante do medo de um co­lapso e mortes em série.

No Portal Meon, foi feita uma enque­te para saber o que as pessoas acham sobre a  flexibilização do comércio que tem dividido opiniões entre os gover­nantes e entre os leitores.

A pegunta foi a seguinte: Quanto ao funcionamento do comércio, qual de­creto você acha melhor no momento?

O decreto federal, que prevê flexibi­lização imediata com ampliação de serviços teve 61,7% dos votos e o de­creto estadual de São Paulo, que prevê apenas serviços essenciais e restringe o restante, 38,3%.

O setor empresarial e industrial pede mesmo socorro, sem dinheiro, muitos correm o risco de ir à falência, fechar as portas definitivamente, mas sem saúde não é possível nem mesmo recomeçar. O embate gera debate e nós fomos ouvir a opinião de um médico para entender quais seriam os riscos do relaxamento da quarenta diante dos números e impactos atuais da doença.

Será que máscaras, distanciamento e álcool em gel possibilitam um retor­no seguro às atividades normais neste momento? Você sabe quantas pessoas podem ser contaminadas por um pa­ciente infectado pela Covid-19?

Nós conversamos com o médico David Souza Lima, que é presidente da Associa­ção Paulista de Medicina de São José dos Campos e nos ajuda a entender melhor as consequências do fim do isolamento e como encontrar o equilíbrio.

Metrópole Magazine – Enquanto os casos de coronavírus crescem a medida que os resultados dos exames vão confirmando novos contaminados, nos sentimos divididos entre a retomada da economia e os cuidados essenciais com a saúde. Do ponto de vista médico, diante da atual situação da doença, é possível relaxar a quarentena de alguma forma, flexibilizando comércio e di­minuindo o isolamento social?

Essa disputa que existe entre a econo­mia e a saúde é algo que tem gerado um questionamento muito grande, mas na verdade as coisas andam interligadas, não dá para desassociar. O grande pro­blema que aconteceu aqui no Brasil, é que transformou-se um problema de saúde em político também. Então, al­guns políticos vão em uma direção e outros vão em outra e a população fica nesse “tiroteio”, isso é muito ruim.

Agora do ponto de vista de saúde, o entendimento principalmente do lado médico, é que a gente precisa no pri­meiro momento, cuidar da área da saú­de e fazer com que não ocorra lotação nos hospitais como em outros países. Se não, pacientes graves que chegam não conseguem assistência adequada e essas pessoas perdem a vida por que a parte médica, a parte de saúde, não consegue dar essa assistência.

A gente ainda não chegou no estado de São Paulo, no pico da pandemia, que é quando chega ao maior número de casos pra gente ver se realmente o sis­tema de saúde suporta e a partir disso, se é possível pensar em relaxamento, volta das atividades e abordar a economia. Não é momento de fazer isso, apesar de haver opiniões divergentes nesse sentido. A gente está vendo que na cidade de São Paulo, as UTI’s já es­tão começando a ficar lotadas.

Metrópole Magazine – Isso pode ter a ver com a falta de cuidado em relação à prevenção e ao isolamento? Dados divulga­dos pelo Governo de São Paulo, mostram que o índice de isolamento social tem fi­cado em média 50% no estado. Acaba refletindo no aumento do número de casos, além da curva do contágio?

Quando a gente relaxa a quarentena, as pessoas acabam saindo mais, se expondo mais e esse vírus tem uma transmissibilidade muito alta, acaba fazendo que a chance de transmissão aumente muito. Então quando você relaxa nesses aspectos da quarente­na, a chance de aumentar o contágio é maior. A transmissão muitas vezes é exponencial, a cada 1 pessoa conta­minada, transmite o vírus em média para 3 pessoas. E essas 3 vão transmitir teoricamente para 9, que vão transmitir para 27.

O grande dilema do crescimento expo­nencial é que muitas vezes no começo parece que é algo pequeno, mas avançando no tempo, começa a crescer de maneira muito rápida, aí o sistema de saúde pode se esgotar e a gente não conseguir dar o suporte adequado para a população. Então esse é o grande medo na área da saúde.

A última coisa que o médico quer que aconteça, é estar em um hospital, chegar alguns pacientes doentes mui­to graves e o número de respiradores não ser suficiente para dar o suporte clínico, é algo muito grave, porque a pessoa pode perder a vida por causa de um equipamento. Isso chegou a acontecer em alguns países como na Itália por exemplo e não queremos que aconteça no Brasil.

Metrópole Magazine- Mas é possível as pes­soas irem retomando as atividades com os cuidados básicos como uso de máscara e álcool em gel? Qual é a orientação?

Eu penso que para retomar as ativi­dades, precisa pelo menos passar pelo pico da pandemia, onde há o au­mento de casos e a gente ainda não chegou, a curva ainda está subindo, então isso é o grande dilema. Claro que todos nós queremos que a eco­nomia volte o mais rápido possível, ninguém é contra a economia, mas a grande questão é a seguinte, se o sistema de saúde ficar super lotado, pode gerar uma quarentena ainda maior. Então do ponto de vista racio­nal, é melhor a gente ir devagar, es­perar passar o vendaval vamos dizer assim e aí começar a relaxar, quando a curva descer.

Metrópole Magazine- Então na sua avalia­ção, academias, salões de beleza, que não são serviços essenciais como supermer­cados, teriam que esperar mais um pouco, mesmo que haja um decreto que libere?

Vai da consciência e é um risco mui­to grande. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. A partir do mo­mento que você começa a liberar mais atividades, a chance da transmissão aumenta e a chance do sistema de saúde lotar aumenta também. São José dos Campos é uma cidade que tem uma organização hospitalar mui­to boa. A gente tem um suporte aqui relativamente bastante bom nesse sentido. Mas é uma referência para outras cidades também aqui no Vale do Paraíba e até São Paulo. O Gover­no Estadual chegou a dar declara­ções no sentido que eventualmente poderiam transferir pacientes de São Paulo para o interior. Essa é a grande questão, a gente não lida com territó­rio fechado, o sistema de saúde é in­tegrado. Isso de uma hora para outra pode tomar uma outra proporção.

Metrópole Magazine- A máscara de pro­teção facial, que é obrigatória no estado, é só preventiva e as pessoas não podem ficar abusando, ou ela impede o contágio?

É um artefato a mais que pode aju­dar sim na diminuição da transmis­sibilidade do vírus, mas não é só a máscara, tem que continuar lavando a mão, com o distanciamento social, não ficar próximo das pessoas , tem que ter os cuidados gerais de higiene. A máscara não significa estar imune, algumas não estão sendo feitas com tecidos adequados e as que são mais fortes são utilizadas no ambiente hospitalar. Claro que tem que usar, mas é um elemento a mais.

Metrópole Magazine- A Cloroquina foi li­berada com algumas regras pelo Governo Federal sem nenhuma comprovação cien­tífica, mas dentro daquilo que você tem acompanhado na área médica, a evolução tanto de tratamento, quanto da prevenção do coronavírus, vem ocorrendo? Tem alguma novidade nesse aspecto?

Tem uma discussão muito grande em relação à cloroquina, para ser usada e tudo mais, mas até hoje não existe nenhum trabalho que tenha um ní­vel de evidência maior para o uso da droga no sentido de falar que esse re­médio trata e cura a doença. Não tem nenhum trabalho grande nesse senti­do falando isso. Ela é uma possibili­dade com um nível de evidência rela­tivamente pequeno. As pessoas estão depositando muita fé na cloroquina , mas não é bem assim, há uma pressão política muito grande. Tanto que se fosse a salvação, a pandemia não teria crescido como está, não só no Brasil, mas em todo mundo também.

Em Hong Kong foram feitos testes com as drogas interferonbeta 1-b, lopina­vir-ritonavir e ribavirin, e preliminarmente parece que os resultados foram bons. Nos Estados Unidos, foi feito um trabalho com a droga remdesivir, que pode ser uma alternativa também, mas em ambos os casos, os estudos precisam avançar ainda mais.

As pessoas que estiverem tendo sin­tomas graves relacionados à outras doenças, como por exemplo infarto do miocárdio e acidente vascular ce­rebral (AVC) , devem procurar atendimento médico hospitalar. As outras doenças não deixaram de existir. Isso é muito importante também.

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