Entrevista – Carolina Ferraz

Sou sempre maior do que qualquer personagem que eu venha interpretar

Impossível não se impactar com a elegância, beleza e largo sorriso de Maria Carolina Álvares Ferraz. De origem humilde, nasceu em Morrinhos, interior de Goiás. Vitimada por uma tragédia na infância, seu pai foi assassinado por um pistoleiro contratado pelo empresário a quem prestava consultoria, com a mãe, aos 14 anos mudou-se para São Paulo. Frequentadora assídua da RMVale, por conta de amigos e uma madrinha, Carolina Ferraz é um dos nomes e rostos mais marcantes da televisão brasileira. Mãe de duas meninas, Valentina e Anna Izabel, é lembrada por papéis como a Norma de “Beleza Pura” e seu famoso bordão “Eu sou rica!”, e outras inúmeras personagens ao longo de sua carreira de mais de três décadas. Depois de processar uma emissora de televisão por questões trabalhistas, a atriz escolheu o Youtube como plataforma para a nova fase. De volta à telinha na reprise da novela “Avenida Brasil”, Carolina, em entrevista exclusiva para a Metrópole Magazine fala de sua carreira, sobre a arte da interpretação e suas impressões sobre o país e a política atual.

O que a dor representa para você?
▸ Não sei o que a dor representa para mim. Eu acho que faz parte da vida, sofrer. Até sofrer no sentido literal. As pessoas sempre associam sofrer a sofrer com dor, mas você pode sofrer, experimentar e vivenciar experiências, então não necessariamente é ruim.

Então, dor e sofrimento são sinônimos?
▸ São sinônimos. A dor faz parte de qualquer processo de amadurecimento, até porque qualquer encontro de você com você mesmo nunca é confortável a princípio. É muito difícil alguém que tenha maturidade, perceber exatamente como de fato é. A maior parte das pessoas, e eu me incluo nelas, tem muitas expectativas, inseguranças, anseios. Por isso acredito que quando as pessoas realmente se conectam com o que de fato são, sintam alguma espécie de dor. Faz parte.

Dentro da prática da interpretação, essa vivência contínua de construção e desconstrução ajuda a lidar com esse sentimento?
▸ Ajuda? Não sei! Não sei mesmo. Sou muito franca e não sei mesmo se ajuda. Você acha que ajuda?

“Tenho uma visão muito diferente do que é interpretar. Não existe nada que eu viva que não seja de dentro de mim. Então eu não vou viver uma outra vida”

Talvez. Por estar vivendo outras vidas, ser parte de outras criações, que não a sua própria existência, possa ajudar, um pensamento apenas. Agora em sua construção, é possível?
▸ Tenho uma visão muito diferente do que é interpretar. Não existe nada que eu viva que não seja de dentro de mim. Então eu não vou viver uma outra vida. É a minha vida emprestando algo a uma outra personagem. É a minha vivência dando vida a outros. Não é a minha vivência do outro. É sempre a minha construção. Porque um personagem existe durante duas horas, nove meses ou no tempo que dura um espetáculo. Eu vivo há 51 anos, tenho 51 anos de história para contar. Evidentemente meu universo vai ser sempre infinitamente maior do que o universo de qualquer personagem. Por isso é muito difícil você ver um ator muito jovem fazer um personagem emblemático, forte, e ter vivência. Por exemplo: o Lázaro Ramos, quando fez Madame Satã aos 21 anos de idade foi uma loucura porque ele tem uma densidade humana, além de uma qualidade dramática de ator, maravilhosa. Então isso é muito raro. A medida que você vai ganhando quilometragem você vai ficando cada vez mais nítido, mais evidente. Posso dizer que nunca é a vivência do outro. Vai ser sempre a minha vivência dando vida ao outro. É a minha humanidade dando humanidade a outro. Sou sempre maior do que qualquer personagem que eu venha interpretar.

E nas plataformas? Cinema, televisão, teatro, a interpretação tem o mesmo significado? Você se sente mais confortável no palco, na gravação para uma telenovela, no cinema?
▸ Gosto das três coisas. Uma pena que a gente não faça mais filmes no Brasil. Poderíamos fazer muito mais porque como é bom cinema, não? Cinema é uma paixão.

Recentemente, você brilhou interpretando uma travesti no filme “A Glória e a Graça”. A interpretação não impõe limites, não é?
▸ A despeito de ser uma mulher cis, é muito mais natural que seja uma mulher interpretando uma pessoa trans do que o contrário porque o gênero é feminino. Então somos femininas. Agora, a minha maior preocupação, no caso dessa personagem, e o que me apaixonou na história, que o Mikael escreveu com tanta beleza, foi a humanidade dessa pessoa. Que ser humano incrível! Uma mulher fantástica, com história forte e a história das irmãs, o resgate familiar, do amor entre elas. Achei tudo aquilo tão lindo. E a despeito de ser uma história na qual a protagonista é uma travesti eu acho que é um filme super familiar. A Sandra Coverlone está tão linda na personagem dela, a interpretação que ela deu. A gente se namorou tanto enquanto interpretavámos, porque eu olhava para ela e dizia: “Danada! Olha onde ela está indo. Olha o que ela está fazendo!”. E ela a mesma coisa, sabe? A ponto do Flávio Tambellini (diretor) dizer: “Vocês querem parar de se namorar e vamos fazer?”. A Sandra também está nesse processo desde o início. Considero todo ator um autor também. Aqui no Brasil, os atores não são considerados autores. Eles não são simplesmente, na visão de todo mundo, do mercado de modo geral, considerados autores do que eles fazem. O que é uma grande loucura porque se eu fosse interpretar o mesmo personagem, lendo o mesmo roteiro, com o mesmo diretor e a Sandra fosse fazer o mesmo personagem, nós iríamos fazer diferente porque somos seres humanos distintos. Portanto temos a nossa impressão digital diferente, somos autores.
Alguns autores não dispõem desse pensamento. Eles são extremamente rígidos com o texto, com as impressões que entregam para a construção do personagem.
Não quero mudar o texto de nenhum autor. Não é isso que estou dizendo. Eu não quero ser coautora do roteirista. Só sou autora da interpretação. Portanto em um longa-metragem onde o diretor é considerado autor, o roteirista é considerado um autor, o ator, de fato, é considerado um autor. É nesse sentido que eu digo.

O Brasil é um país preconceituoso?
▸ Pra caramba! Apenas pontuando o tema do filme, é o país onde mais se mata homossexuais, que ainda morrem vítimas de agressão. É um absurdo!
Li, que você não exerce seu direito de voto de forma pessoal, tem anulado, eleição pós eleição. Eu exerço. Vou lá e exerço meu direito de anular o voto porque eu não me sinto representada. Infelizmente. Gosto de ir lá, poderia não ir e depois justificar. Faço questão de ir. Voto nulo porque acredito na democracia, mas não me sinto representada.

“Nós somos coautores dessa situação absolutamente infeliz em que a gente se encontra. A gente não está onde está a troco de nada”

Então, você vai, e com o voto nulo deixa claro sua insatisfação com a política brasileira?
▸ Nós somos coautores dessa situação absolutamente infeliz em que a gente se encontra. A gente não está onde está a troco de nada. São anos e anos de maus governantes, sucessivamente cometendo erros atrás de erros e nós não mudamos isso. Não sabemos exigir. Nós não temos a maturidade de acompanhar, sabe aquele deputado que você elegeu? Você não vai lá, não acompanha se ele está cumprindo a plataforma que prometeu em campanha. Nem eu, inclusive! Agora eu vou mudar, eu quero saber, estou acompanhando, quero participar. Acho que é a minha responsabilidade acompanhar o que vai acontecer com o país. Estou tomando esta atitude conscientemente, tenho inúmeros amigos que discordam loucamente de mim, dizendo que eu preciso escolher, que eu preciso ir lá e votar em alguém. Mas eu não vou fazer isso porque eu não me encontro em nenhum deles. Eu vou ser leal a mim mesma. É a minha opinião.

Ao mesmo tempo em que você anula, você acredita que é fundamental que a população esteja próxima de seus governantes na fiscalização dos atos desta representação. Não é conflituosa esta posição?
▸ Não. É fundamental acompanhar a performance dos políticos! Isso muda determinantemente o futuro da nação. E educação, né? Você morar em um país onde cultura é considerado luxo… Tem que ter educação para todo mundo! Educação de fato! Educação boa, acessível. As pessoas têm que ter acesso à educação. Isso eu acho que é o princípio de tudo.

Dentro deste novo momento em que você está vivendo, após uma relação longa com uma emissora de TV, o que muda?
▸ Não associo a arte a uma plataforma, eu associo a arte à arte. A arte é uma maneira de respirar, de acordar é um modo de viver. Acredito que existam pessoas que são artistas de extrema sensibilidade, importância e que fazem um trabalho da maior beleza, seriedade e nunca foram associados a um veículo. Então essa pergunta eu não sei responder com exatidão. São coisas que transcendem a caixinha. Acho que é possível fazer uma obra prima na televisão a despeito de fazer uma coisa para as grandes massas. Existem pessoas que fazem coisas incríveis e que transcendem, que nos emocionam e que olham a vida de um jeito diferente. Aí eu acredito na arte. Mas não depende do veículo, entende?

O que te atrai nos livros?
▸ Estou lendo tão pouco. Eu já li muito mais do que eu leio recentemente. Fico muito mais vendo filme, vendo série, toda viciada. Agora, com todas essas plataformas disponíveis com a proliferação enorme de opções para você ver, gêneros, autores, atores, é uma delícia. Assisto tudo, absolutamente tudo do que há de melhor e também do que há de pior. Estou meio viciada e tenho lido menos. Mas adoro romances históricos. Gosto de ler também sobre filosofia.

“É uma grande aventura e um grande aprendizado. Quando você chega aos 50 anos e se propõe a fazer uma coisa tão diferente, precisa ter disponibilidade emocional e intelectual muito grande”

O teatro é algo que te aproxima da realidade brasileira, das pessoas? Você se sente bastante à vontade nos palcos?
▸ Adoro. Subir no palco é um exercício maravilhoso para todo ator porque durante aquele tempo que você está ali em cima, está sujeito a qualquer coisa e é uma maravilha isso. Porque há uma interação muito grande. Essa humildade de você entender que cada dia, de fato, é um espetáculo diferente. Quantas vezes eu cheguei no teatro mal, triste, tinha tido algum problema, dizendo “hoje não vai dar” e dava! E eu saia do espetáculo melhor. É transcendental mesmo, me eleva. Essa experiência imediata de transcender, de sair de um estado de espírito e ser invadido por outro, só o teatro consegue. É muito, muito lindo fazer teatro. Não acho fundamental, conheço alguns atores que não fizeram teatro e os considero excelentes atores, excelentes artistas.

Esse tempo célere, com redes sociais, e aplicativos de mensagens, onde tudo é imediato, tem nos afastado de pensar, de refletir?
▸ Não é o tempo que afastou a gente da reflexão. Acho que o WhatsApp te afasta mais das coisas do que as séries de tv. Você fica na função daquela porcaria que serviria para que as coisas se resolvessem com mais facilidade e hoje se tornou uma coisa que te obriga ter um engajamento. Aqueles grupos e vão surgindo pessoas, comentários, ideias e você tem que falar, não tenho muito o que dizer mais. Gera um cansaço. Não há mais uma opinião que chegue. Não há opinião que dê vazão, que baste. Então eu acho que isso aproxima, mas ao mesmo tempo, ao contrário até, acho que deixa sobrepujante a necessidade de um contato de você com você mesmo. Então você acaba pensando mais porque chega uma hora que isso tudo satura, sabe? E aí a gente volta para si um pouco.

É nesse movimento que você decidiu utilizar a plataforma de compartilhamento de vídeos Youtube? Como está sendo este novo projeto?
▸ É uma grande aventura e um grande aprendizado. Quando você chega aos 50 anos e se propõe a fazer uma coisa tão diferente, precisa ter disponibilidade emocional e intelectual muito grande, mas no fundo estou tendo a oportunidade de mostrar mais minha personalidade, uma coisa mais inquieta. Não estou me levando muito a sério, quero mais é fazer loucura mesmo. É o momento para isso. Sei que vou errar muito até conseguir acertar. Adoro fazer quadros como o “Carona da Cantoria”, inspirado no programa do apresentador britânico James Corden e “Cozinha do Possível”, sempre gostei de cozinhar. É a continuação de um projeto que eu já gostava.

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