Entrevista

Sérgio Sá Leitão, secretário de Cultura e Economia Criativa, apresenta as ações do Governo Doria para inserir a cultura como política pública de estado

Rentabilizar a criatividade e o talento transformando-os em produto e renda

Sérgio Sá Leitão é um defensor incansável da importância da promoção da cultura como política de Estado. Nascido no Rio de Janeiro, tem 52 anos e é formado em jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Foi repórter e editor do Jornal do Brasil e da Folha de S.Paulo, e na década de 2000 migrou para uma carreira como diretor de filmes,
documentários e propagandas. No início do governo Luiz Inácio Lula da Silva, foi chefe de gabinete e secretário de políticas culturais do MinC (Ministério da Cultura), sob o comando
do então ministro Gilberto Gil. Depois, ainda no governo federal, foi assessor da presidência do BNDES (Banco de Desenvolvimento Econômico e Social) e diretor da Ancine (Agência Nacional de Cinema). De 2009 a 2015, presidiu a RioFilme, empresa da Prefeitura do Rio que atua no incentivo à produção e distribuição de filmes, durante a gestão de
Eduardo Paes (PMDB). De 2012 a 2015, acumulou também o cargo de secretário municipal de Cultura do Rio. Em abril de 2017, já no governo Temer, foi nomeado diretor da Ancine. Três meses depois assumiu o Ministério da Cultura.

Convidado pelo governador João Doria, assumiu a pasta da Cultura e Economia Criativa do Governo de São Paulo e tem sido um dos grandes articuladores do investimento na área cultural em todo o país. Em entrevista exclusiva para a Metrópole Magazine, Sá Leitão faz um balanço de seus oito meses a frente da gestão cultural do estado e aponta os
caminhos para o crescimento do setor como plataforma para geração de emprego e renda.

Nos últimos cinco anos, a economia criativa cresceu em média 8,1%, índice
superior a muitos setores tradicionais. Grande parte desse motor está no Estado de São Paulo, que detém 47% do PIB criativo brasileiro e é responsável por 3,9% do indicador estadual, 330 mil empregos e 100 mil empresas e instituições. Em sua análise qual é o maior desafio de sua missão a frente da Secretaria de
Cultura e Economia Criativa? 

▸ Os números são realmente significativos. As atividades culturais e criativas constituem um poderoso vetor de geração de renda, emprego, inclusão e desenvolvimento. São marcas de São Paulo. E podem crescer ainda mais. Nosso principal desafio é realizar uma
política cultural potente, contemporânea, abrangente, inclusiva e eficiente, capaz de impulsionar a arte, a cultura e a economia criativa em todas as regiões do estado. É a tarefa que o governador João Doria deu à equipe da secretaria. Com resultados concretos  para o conjunto da população, não apenas para os artistas e os produtores culturais.

A mudança do nome da secretaria objetiva priorizar atividades econômicas que usam a criatividade humana para gerar produtos ou serviços diferentes, inovadores e com valor agregado. Como esta mudança foi recebida
pela classe artística paulista?

▸ Penso que foi uma mudança bem-vinda. Trata-se de uma ampliação e de um fortalecimento da secretaria. As atividades culturais e criativas impactam positivamente o desenvolvimento humano e também o desenvolvimento econômico. Essas dimensões são complementares. Precisamos valorizar a criação, a arte, a produção cultural, e também o impacto econômico do que se faz neste campo. A abordagem econômica valoriza a arte e
evidencia o caráter estratégico da política cultural. Cultura é uma questão civilizatória. E, ao mesmo tempo, uma questão econômica importante.

“Estamos lançando
um programa
voltado para a
difusão cultural
em parceria com
os municípios. São
diversas ações
articuladas”

Quais são as prioridades da gestão do governador Doria no que se refere a difusão cultural? Muitas cidades paulistas ainda têm poucos equipamentos culturais, em mais de uma centena há somente biblioteca e mesmo assim sem condições adequadas para a atividade. Como fomentar a cultura em municípios com esse perfil e que não contam com uma secretaria ou diretoria dedicada
à cultura?

▸ Estamos lançando um programa voltado para a difusão cultural em parceria com os municípios. São diversas ações articuladas. Espero que o investimento neste programa cresça ao longo dos próximos anos. É vital trabalhar em parceria com as prefeituras, como se faz na saúde, na educação e em outras áreas. Temos que melhorar a infraestrutura
cultural no interior e no litoral, qualificar os gestores públicos e privados, ampliar muito a circulação de espetáculos, fortalecer o patrimônio material e imaterial e valorizar cada vez mais as expressões culturais e artísticas realizadas em todo o estado.

Muitos equipamentos presentes na capital paulista, como a Sala São Paulo, Pinacoteca e Museu do Futebol, são referências para o Brasil e o mundo, como é o caso da Biblioteca de São Paulo, que concorreu a um prêmio em Londres. Sua
gestão tentará reproduzir essas experiências em outros municípios? De que maneira?

▸ Os corpos estáveis, os programas estratégicos e as instituições referenciais são um patrimônio de São Paulo. Devem ser reconhecidos, valorizados e aperfeiçoados. O desafio aqui é fazer com que sejam mais acessíveis, mantendo a excelência. Os acervos e exposições temporárias devem itinerar mais, alcançando o maior número possível de
macrorregiões. Há pouco, por exemplo, viabilizamos a abertura da Pinacoteca de Botucatu, com uma exposição de obras do acervo da Pinacoteca de São Paulo. As orquestras e a SP Companhia de Dança também precisam circular mais, levando arte de alta qualidade ao
interior e ao litoral do estado.

“Os corpos estáveis,
os programas
estratégicos e
as instituições
referenciais são
um patrimônio de
São Paulo. Devem
ser reconhecidos,
valorizados e
aperfeiçoados”

Qual a importância do sistema de gestão por Organizações Sociais, adotado pela gestão cultural há mais de doze anos? Quais são seus pontos fortes e o que pode ser melhorado em sua análise?

▸ É um modelo de gestão vitorioso, que apresenta muitas vantagens em relação ao modelo 100% estatal. Em primeiro lugar, as OSs podem captar recursos de outras fontes. Em segundo, agregam seu know-how em gestão. Em terceiro, há a questão da governança, com os conselhos. Em quarto, há mais transparência. Em quinto, há uma relação regida
por contratos de gestão, com metas de desempenho. Finalmente, há mais flexibilidade para contratar profissionais competentes. O que falta é a secretaria cumprir plenamente o seu papel, ou seja, definir com clareza as  diretrizes da política de cultura, estabelecer
mais metas qualitativas e fiscalizar o cumprimento dos contratos. Estamos trabalhando nesta direção.

 

 

 

 

 

 

 

“A cultura é uma das
prioridades deste
governo. Estamos
realizando em 2019
um investimento
de cerca de R$
1 bilhão na área,
considerando todos
os mecanismos”

“O modelo institucional mais avançado existente hoje no mundo para a gestão de uma política cultural contemporânea, que deve combinar a preservação do patrimônio material e imaterial, o desenvolvimento da economia criativa, a afirmação simbólica do país (‘marca- -país’ e ‘soft power’), a proteção dos direitos autorais e da propriedade  intelectual, a profissionalização setorial, o fomento às artes e a integração com áreas afins, é o que integra Cultura, Esporte e Turismo; e, não raro, Mídia” com esta declaração o senhor defendeu a fusão do Ministério da Cultura com o do Esporte, hoje no governo Bolsonaro, Ministério da Cidadania. Passados 8 meses, o senhor avalia de forma positiva esta fusão?

▸ Diante da necessidade de reduzir o número de ministérios e o custo de funcionamento do governo, defendi, com base num estudo sobre experiências internacionais, que o
melhor modelo seria a criação de um ministério voltado para a economia criativa, reunindo cultura, turismo, esporte e mídia. São áreas próximas e haveria muita sinergia. O governo
optou por outro caminho, unindo cultura, esporte e desenvolvimento social. É uma visão que privilegia a dimensão social da cultura, em vez da dimensão econômica e da dimensão
simbólica. Não me parece a ideal. O importante é que as secretarias e vinculadas do extinto MinC foram mantidas.

Secretário da Cultura e Economia Criativa, Sérgio Sá Leitão.Local: São Paulo/SP. Data: 01/01/2019. Foto: Governo do Estado de São Paulo

“As atividades culturais e criativas são marcas registradas do nosso Estado e contribuem para o desenvolvimento social e econômico de São Paulo”, com esta frase nosso governador João Doria demonstra claramente que ao invés do pensamento dominante pelos governantes em geral, cultura não é gasto, mas investimento. Como o senhor vê este avanço e a decisão de promover a cultura como política prioritária para o Estado?

▸ A cultura é uma das prioridades deste governo. Estamos realizando em 2019 um investimento de cerca de R$ 1 bilhão na área, considerando todos os mecanismos. Há muitos avanços e conquistas. O governador João Doria demonstrou em diversos
momentos seu compromisso com a arte, a cultura e a economia criativa de São Paulo. Tem sido muito presente. Não há outro estado em que o Conselho Estadual de Cultura seja ligado diretamente ao governador. Ele participa de todas as reuniões. Trabalhar em sua equipe tem sido uma experiência estimulante e recompensadora. E a tendência é melhorar. Faremos cada vez mais.

“Estamos lançando
o programa
ProAudiovisual
SP, com uma
série de ações
para estimular o
desenvolvimento
da indústria
audiovisual de
São Paulo”

Qual análise o senhor faz do audiovisual em São Paulo. O Governo Federal tem polemizado por conta das manifestações do presidente Bolsonaro a respeito do que deve ou não ser incentivado por meio das leis de apoio a cultura. O cinema é uma atividade econômica em crescimento no país. Os produtores podem contar com o apoio do governo paulista?

▸ Estamos lançando o programa ProAudiovisual SP, com uma série de ações para estimular o desenvolvimento da indústria audiovisual de São Paulo. Há um vasto potencial de expansão. E de contribuição para a geração de emprego, renda e desenvolvimento. Por determinação do governador, o investimento nesta área vai crescer ano a ano. Vamos
implementar três linhas novas em parceria com a Desenvolve SP, considerando crédito e investimento. Incentivar a competitividade é fundamental. Menos burocracia e mais resultados.

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