Educação&

Atos cívicos, o resgate da ética e moral em sala de aula

Embora o patriotismo contribua para o desenvolvimento do aluno enquanto cidadão responsável, a educação brasileira enfrenta diversos impasses que colocam em cheque toda a estrutura ideal

O ensino brasileiro deixou de agregar aos alunos os valores cívicos, cotidianos durante a vigência dos governos militares no país. Após a dissolução do regime, tornou-se cada vez mais comum a crítica ao patriotismo do que sua valorização. Cultivar atos cívicos significaria, na prática, promover cidadãos mais conscientes, mas, por outro lado, a falta de bons exemplos não contribui para a existência dessa realidade, segundo apontam especialistas em educação.

Em 25 de janeiro deste ano, o MEC (Ministério da Educação) enviou a escolas de todo o país uma carta do ministro Ricardo Vélez Rodríguez, que pedia que alunos e professores cantassem o hino nacional diante da bandeira do Brasil, e que o ato fosse filmado e os vídeos enviados à pasta ou à Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

A determinação foi bastante criticada na imprensa nacional e o MEC desistiu de pedir vídeos dos alunos durante o hino nacional.

Mas incentivar essas ações não contribuiria para o desenvolvimento de alunos mais responsáveis, quanto à ética e à moral? Em São José dos Campos, pelo menos, a resposta é sim. Todas as 47 Escolas de Ensino Fundamental do município praticam a execução do hino nacional, uma vez por semana.

De acordo com a secretaria municipal de Educação e Cidadania a atividade tem como principal objetivo estimular nos alunos, do 1º ao 9º ano, orientações de valores de convivência. Ainda segundo a pasta, algumas unidades aproveitam a ocasião para realizar atividades com o intuito de despertar nos estudantes o interesse pelos atos cívicos. Em Caçapava, esta também é uma realidade dos alunos da rede municipal de ensino.

Para Deise Nancy Urias de Morais, mestra em educação pela USP (Universidade de São Paulo) e professora na Universidade de Taubaté, a prática do civismo é importante, mas a sua execução deve ser repensada, porque o patriotismo, a identidade com a nação se expressa de modos muito mais complexos do que simplesmente cantando o hino.

“Uma educação cívica deve realmente formar cidadãos brasileiros, e esses devem ser capazes de reconhecer os problemas do nosso país com profundidade e seriedade. Cidadãos legítimos conhecem e reconhecem a história do seu país e se preocupam em não repetir erros do passado”, completa.

A rede estadual de ensino conta atualmente com cerca de 3,5 milhões de alunos, distribuídos em 55 mil escolas. Na RMVale, são mais de 160 mil, sendo que São José dos Campos abriga quase a metade deste número.

Na opinião de João Luís de Almeida Machado, mestre em educação pela Universidade Mackenzie, o hino deve ser cantado por reconhecimento à cultura brasileira.

“Não vejo problemas em cantar o hino desde que isso tenha sentido para os alunos. Não se canta o hino por imposição, mas por reconhecimento de nossa história, crescimento, valores, ética e progresso. Quando tivermos um Brasil que nos orgulhe e que não nos envergonhe pelos casos de corrupção e pelas arbitrariedades e injustiças sociais, aprender o hino irá ser algo natural, buscado pelos educadores, famílias e pelos próprios estudantes”, ponderou.

Machado ainda destaca que com base no cenário atual em que vivemos é preciso incentivar práticas de colaboração através do civismo, e que a ética e a cidadania são trabalhadas nas escolas, mas, talvez, não da forma como deveriam.

“Precisamos incentivar práticas de colaboração, respeito, fraternidade e de comportamento ético, no entanto, isso deve ser trabalhado primeiro pela postura dos educadores e das famílias, de modo a se tornarem indicativos para as novas gerações daquilo que se espera delas na vida em sociedade. Se o exemplo não é dado, nenhum discurso consegue repercutir”, conclui.

Desafios da educação
A educação no Brasil sempre foi um dos principais desafios dos governantes. O país continua a ocupar as últimas posições em rankings internacionais, como por exemplo, no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).

Dados de 2015, os mais recentes, mostram que o Brasil ocupa 59ª posição em literatura, 63º lugar em ciências e 65ª posição em matemática, em uma avaliação que abrange 70 países. A bandeira verde e amarela está à frente apenas da Argélia, Tunísia, Líbano e Peru, perdendo para os vizinhos Chile, Argentina e Uruguai.

De acordo com o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), em 2014, a média de investimento anual por aluno brasileiro no Ensino Fundamental foi de US$ 3.799, enquanto em países de primeiro mundo, a média de investimento é de US$ 8.733.

Os números refletem na realidade quanto ao aluno, professor e estrutura oferecida a essas duas classes. No Brasil, há deficiências em todos os elementos desse segmento de raciocínio.

“Precisamos incentivar práticas de colaboração, respeito, fraternidade e de comportamento ético. No entanto, se o exemplo não é dado, nenhum discurso consegue repercutir”

João Luís de Almeida Machado, mestre em educação pela Universidade Mackenzie

“Muitas políticas públicas precisam ser criadas e todas elas devem estar em consonância com um projeto de país em que a educação de qualidade seja a meta e o compromisso do governo e da sociedade. Não se trata de apontar duas ou três ações e defender que elas sejam capazes de resolver o problema da nossa educação, que é um cenário complexo.

Em linhas gerais, necessitamos de ações concretas que garantam todas as condições ‘estruturais, econômicas, sociais, emocionais, psicológicas’ necessárias para que professores possam ensinar e alunos possam aprender”, ressalta a mestre em educação Deise Nancy de Morais.

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