Crônica das Cidades

A triste vida de um bandido famoso

Numa sexta-feira chuvosa, depois de exaustiva viagem pela serra litorânea, na iminência de interdição pelo excesso de chuvas, resolvi investir num jantar de qualidade, até porque desci a trabalho e merecia esse reconhecimento.
Um drink, bom papo com o casal na mesa ao lado, o dono do restaurante muito amável e o jantar à altura. Rimos muito ao abordar temas sobre a corrupção que literalmente corrompe o país. Contei que naquele dia tinha pensado em me apropriar de um adoçante, em saquinho, quando almoçava em um restaurante, pois havia lembrado que em casa não tinha. Só tomo café com leite com adoçante então, pensei: um saquinho iria me salvar.
Depois de colocá-lo na bolsa e me arrepender pelo quase furto, devolvi. Pensei: não perco minha salvação nem por um adoçante!

Sozinha, comecei uma conversa pelo WhatsApp com uma amiga que estava descendo, todos nós preocupados com as condições das estradas. Em uma mesa um pouco mais distante, mas não tanto a impedir algumas frases alegres sobre o momento político, estavam três pessoas, sendo uma delas uma jornalista famosa, a quem admiro pelo trabalho e beleza.
Tive vontade de tirar uma foto, num impulso natural, mas me contive. Afinal, não o faria sem sua permissão e, claro, não iria incomodá-la num momento de privacidade.
O primeiro casal foi embora e logo outro sentou-se a mesa ao lado. Depois de um tempo razoável, já no final da noite, enquanto eles ainda degustavam um apetitoso lombo de bacalhau, o dono do restaurante sentou-se entre as duas mesas e a conversa rolava solta quando o homem, de forma grosseira disse: “Você tirou uma foto minha, me dê seu celular”.
Como? Indaguei surpresa. “Sim, me dê seu celular!!”. Não, não tirei foto, estou apenas falando com uma amiga, respondi, sendo sincera.
O dono do restaurante interviu (contra mim, para minha surpresa) e disse: “Realmente, você apontou o celular para ele, dê o celular.” Entreguei o celular. Obviamente ele constatou que não havia nenhuma foto dele. Não se desculpou. O dono do restaurante também não. Se limitou a dizer “parecia que você tinha apontado a câmera para ele”. Paguei a conta e me retirei.

Deve ser muito triste a vida de um suposto bandido famoso. Suponho que seja bandido porque, se fosse apenas famoso, não teria tido esse acesso de fúria diante de uma possível foto. É possivelmente famoso porque para se achar reconhecível em público, sua imagem deve estar estampada nos noticiários policiais.
Pela postura do dono do restaurante, que não hesitou em apoia-lo, deve ter recursos suficientes para investir em belos jantares. A companheira se limitou a abaixar os olhos, envergonhada, porque deve presenciar essa cena rotineiramente.
De minha parte, não reconheci o bandido famoso que nem mesmo sendo bandido e famoso conseguiu o diferencial de ser reconhecido, o que, de alguma forma, deve ser frustrante. Como não o fotografei e nem havia prestado muita atenção nele, será difícil descobrir de que crime é acusado. Pela cena, deve ser dinheiro público. Acordei rindo e pensando: como é triste a vida de um bandido famoso!

Maria Clara Barreto, advogada. Residente no Litoral Norte, amante do frio europeu e indignada com a falta de elegância deste tempo

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