Comportamento

Com o mundo ao alcance, a tecnologia na mão de crianças e jovens pode causar problemas psicológicos e até físicos

Quando a tecnologia pode atrapalhar

Bruno Castilho

Os dispositivos eletrônicos estão cada vez mais presentes na vida das pessoas. E não importa a idade, pois é frequente ver crianças de cinco anos com tablets ou celulares assistindo vídeos infantis como o famoso “Baby Shark” ou o já quase ultrapassado “Peppa Pig”.

Com os jovens, na faixa etária dos 11 aos 17 anos, o panorama segue a mesma linha: cabeça baixa, atenção fixa no aparelho, deixando o que acontece ao redor disperso. A única diferença é que, neste caso, os vídeos dão lugar à troca de mensagens pelo WhatsApp e às postagens
no Instagram.

“Deixar uma criança sozinha com o celular e internet na mão é a mesma coisa que você deixá-la sozinha na rua”

Simone Januário, psicóloga

E os números deixam este cenário do mundo moderno cada vez mais exposto, já que, de acordo com dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2018, divulgado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, pouco mais de 24 milhões de crianças e adolescentes são usuários de internet no País. Isso corresponde a 86% do total de jovens entre 9 a 17 anos.

Para especialistas, o uso excessivo da internet por crianças e adolescentes em tablets e smartphones pode ser considerado preocupante. De acordo com a psicóloga Simone Januário, esses dispositivos eletrônicos são uma realidade e não há como “vilanizar” essa característica do tempo em que vivemos, mas toda atenção possível não é exagerada.

“Deixar uma criança sozinha com o celular e internet na mão é a mesma coisa que você deixá-la sozinha na rua. O que quero dizer é que a gente não sabe qual perigo ela está correndo, já que pode estar assistindo a um vídeo ingênuo ou pode ser outra coisa mais grave”, diz Simone.

Qual a idade certa?
No caso dos adolescentes, a psicóloga explica que esses dispositivos
podem potencializar o isolamento que acontece entre os jovens e a família, fazendo com que eles percam um pouco da intimidade que deveria existir.

“Não existe um período máximo ou mínimo de tempo para usar o celular e sim postura correta, sempre com o pescoço reto e o olhar na linha do horizonte, apoiando o celular na altura do seu olhar”

Vivian Veneziani, fisioterapeuta

“Esse isolamento é algo que é natural, da idade, mas que tem sido potencializado e muitas vezes a família não consegue perceber. Percebo que os pais vem perdendo essa intimidade com os filhos. O grande problema é que os pais do século 21 foram educados para ser pais do século 20, então existe uma mudança de hábito e de conduta que precisa ser feita”, afirma.

Para Simone Januário, apesar de existir vários aplicativos e jogos que
podem ser educativos, a idade ideal para o jovem ter o contato com esses tipos de aparelho é a partir dos 13 anos e sempre com a supervisão de um adulto. “Eu costumo dizer que o celular não é um presente ideal para crianças. O aparelho pode ser um empréstimo, para passar algumas horas. E é sempre importante ter uma vigilância”, explica.

Olho na tela e dor no pescoço
Além dos cuidados psicológicos, o mundo moderno também requer atenção
com o físico, mais precisamente o pescoço. A cada mês, o número de
pessoas registradas com “Síndrome de Text Neck” ou “Síndrome do Pescoço de Texto” — em tradução livre – cresce. Esses pacientes apresentam dores na região cervical ou parte superior dos ombros – como cabeça, pescoço, ombros e braços.

Segundo Vivian Veneziani, fisioterapeuta de uma clínica de São José, esse
problema já pode ser considerado uma epidemia, já que não são poucos os casos de pessoas que sentem dores no pescoço por uso excessivo de celular.
“Com o uso desses aparelhos, a postura fica péssima. A cabeça anterioriza e
aumenta a lordose da coluna cervical”, explica Vívian.

Para diminuir os efeitos da “Síndrome do Pescoço de Texto”, a recomendação é o alongamento para aliviar a tensão do local, assim como exercícios de rotação e relaxamento do pescoço. Em certas ocasiões pode ser aconselhável uma automassagem. “Não existe um período máximo ou mínimo de tempo para usar o celular e sim postura correta, sempre com o pescoço reto e o olhar na linha do horizonte, apoiando o celular na altura do seu olhar”, afirma fisioterapeuta.

Celular? Aqui não!
Sabendo de todos os benefícios e complicações que o uso do celular pode
causar em crianças e adolescentes – e pesando todos eles na balança – a jornalista Renata Veneziani criou uma regra própria em sua casa. Mãe de três crianças –os gêmeos José Carlos e João Miguel, de três anos, e Sofia, de sete – ela considera um desafio muito grande tentar restringir o uso destes dispositivos eletrônicos pelos pequenos. O celular dela e do marido não possuem jogos ou aplicativos infantis. Os gêmeos, caçulas, não têm contato com nenhum aparelho. A não ser para tirar fotos para mandar para os primos que moram em outra cidade. Já Sofia, consegue se divertir com alguns jogos em um tablet, mas sempre com tempo regulado e acompanhado dos pais. Vídeos no Youtube também são sempre monitorados.

“A gente vive em uma sociedade tecnológica, mas as crianças não podem largar a contação de histórias, por exemplo. A criança deve brincar, se sujar, ter contato com o mundo real”

Renata Veneziani,jornalista

“A Sofia é mais questionadora e, muitas vezes, ela vem e me diz que é a única da sala dela que não tem um celular ou que não mexe no celular da mãe. Eu e meu marido sempre conversamos com ela, dizendo que cada família é de um jeito e que temos que respeitar. Esse é um dos desafios”, diz.
Para Renata, o maior problema do encontro precoce do jovem com a  tecnologia é a falta de percepção com o mundo real, a dificuldade de  prender a lidar com as frustrações e de perceber que os problemas não podem ser resolvidos com um clique.

“A gente vive em uma sociedade tecnológica,
mas as crianças não podem largar a contação de histórias, por exemplo.
A criança deve brincar, se sujar, ter contato com o mundo real. A tecnologia
é importante, sim. Mas a vivência é muito mais importante”, completa.


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