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Em 2010, 24% da população do país era composta por pessoas com algum tipo de deficiência

Acessibilidade e inclusão, o desafio das pessoas com deficiência

discussão sobre políticas públicas de acessibilidade e inclusão às pessoas com algum tipo de deficiência é um assunto que está em pauta há muito tempo no Brasil e no mundo. Os avanços são notórios e vêm de todos os lados, tanto na busca por derrubar barreiras físicas
quanto culturais. Porém, as medidas adotadas pelos governos municipais ainda são questionáveis e, às vezes, não são de fato 100% resolutivas. Para se ter uma ideia, há nove anos o Brasil tinha 190 milhões de habitantes e quase 24% da população, ou 45
milhões de pessoas, era composta por cidadãos com algum tipo de deficiência, conforme apontou naquele ano o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). Atualmente, a população do país chega a 208 milhões de habitantes. A Conferência Nacional das Pessoas com Deficiência discute há tempos temas setoriais ligados à saúde, educação, transporte e lazer. Na prática são, por exemplo, políticas públicas de inclusão,
como ônibus adaptados, calçadas com rampas de acesso e sinalizações específicas. Em São José dos Campos, principal cidade da RMVale, a frota de ônibus é composta por 388  veículos e 77 vans. Todos os ônibus são 100% adaptados, de acordo com a Prefeitura.
Apesar disso, o acesso ao transporte ainda é questionável. Sebastião Garcia de Souza, 43 anos, trabalha desde 2007 na APPD (Associação das Pessoas Portadoras de Deficiência) de São José dos Campos e contesta esse tipo de serviço no município. “Nos ônibus existem  vários fatores que abrangem muitas pessoas com deficiência física. A maioria dos ônibus é
alto demais, tornando-se um obstáculo para as pessoas subirem, e os motoristas não são preparados adequadamente para atender essa demanda”, pondera.

O que os municípios oferecem?

Entre os três maiores municípios do Vale do Paraíba, São José dos Campos é a cidade que mais dispõe de serviços à população com algum tipo de deficiência. Seja atendimento psicossocial, de proteção e atenção integral às famílias, oficinas e cursos, ou incentivo ao
esporte e competições em diversas modalidades, e ainda, assistência social. Assim como São José, Taubaté também promove diversos programas que são interligados com as secretarias de saúde, educação e mobilidade urbana. Na cidade, existem, diversos serviços,
escolas adaptadas, programas de orientação profissional, reabilitação  terapia e rede de proteção às pessoas com deficiência.

Já em Jacareí, a Prefeitura promove um serviço tipificado de média complexidade que tem como finalidade oferecer autonomia e inclusão social, por meio de oficinas socioeducativas
que possibilitam a melhoria da qualidade de vida para as pessoas com deficiência e suas famílias. Mesmo com os programas disponibilizados pelas prefeituras, Sebastião Garcia diz que as pessoas têm dificuldade de ir até os locais que prestam de algum tipo de  atendimento e sofrem com a falta de apoio psicológico. “Outro fator é quando a pessoa
nasce com algum tipo de deficiência ou quando adquire ao longo da vida. Essa pessoa necessita de atendimento psicológico ou de fisioterapia. Na APPD temos hoje esse tipo de
serviço, mas é uma entidade pequena e a dificuldade de mobilidade afeta o acesso dessas pessoas ao serviço”, conclui.

“A maioria
dos ônibus é
alto demais,
tornando-se
um obstáculo
para as pessoas
subirem, e os
motoristas não
são preparados
adequadamente
para atender essa
demanda.”

Sebastião Garcia de Souza,
Vice presidente da APPD

Agressão às pessoas com deficiência

Além dos problemas de acessibilidade existe ainda outra questão: a violência contra as pessoas com deficiência física. Há dois anos, São José dos Campos, Taubaté e Caraguatatuba, registraram 278 vítimas de algum tipo de agressão. Em todo o ano passado foram 259 casos, segundo dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública).
As pessoas com deficiência física e intelectual são os mais vulneráveis do segmento, de acordo com a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

“A pessoa com deficiência física tem algumas limitações e também acaba sofrendo agressão geralmente de pessoas próximas, o que também dificulta a denúncia. A deficiência intelectual, por sua vez, tem uma história totalmente voltada à segregação e exclusão, isso em si já é um ato de violência. Os principais crimes contra essa parcela
da população são ligados a ameaça, furto e lesão corporal”, diz um trecho da nota.

A pasta informa ainda que para incluir essas pessoas no convívio social e garantir a elas o direito que qualquer cidadão existe a 1ª Delegacia de Polícia da Pessoa com Deficiência do
Estado de São Paulo, que faz o acompanhamento dos casos e realiza, quando necessário, encaminhamentos para outros serviços. Esse grupo é composto por uma equipe multidisciplinar que conta com assistentes sociais, psicólogos, intérpretes de Libras e sociólogos.

A ideia, segundo a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, é levar esse formato de atendimento do Centro de Apoio, nos mesmos moldes, para o interior de São Paulo, por meio de parceria com os DEINTER’s (Departamentos de Polícia do Interior).

“Estagiei em uma
agência daqui de
Jacareí e nessa
época a principal
dificuldade foi
conciliar trabalho,
saúde e estudos”

Thulio Toledo,
Designer gráfico

Acessibilidade no mercado de trabalho

O designer gráfico Thulio Toledo, 29 anos, morador de Jacareí, tem uma doença congênita chamada distrofia muscular de Ullrich que afeta o desenvolvimento muscular. Por conta
disso, a vida com a doença traz algumas necessidades como cadeira de rodas adaptada e o acompanhamento de um enfermeiro 24 horas por dia.

Mesmo com todas essas particularidades, Thulio desenvolveu uma intimidade com a arte desde os 6 anos de idade por incentivo da avó.

“Eu sempre fui muito apegado a ela [avó] e ela a mim. Então começou a me despertar o interesse pelas artes plásticas. Comecei a ir com ela nas aulas, depois fiz aulas particulares de desenho e anatomia, mais tarde EAD em pintura digital na Faculdade Melies, em São Paulo”, conta o designer.

Aos 19 anos, Thulio ingressou no curso superior em Publicidade e Propaganda incentivado pela família. Neste período, o designer fez estágio em uma agência de publicidade.

“Estagiei em uma agência daqui de Jacareí e nessa época a principal dificuldade foi conciliar trabalho, saúde e estudos. […]Trabalhava das 9h às 16h atuando como designer júnior. Não preciso de muita adaptação para trabalhar no computador, a não ser uma mesa na altura e largura adequada para acesso da cadeira de rodas. Além disso há uma enfermeira acompanhante 24h comigo para me atender”, explica Thulio.

O designer aponta que a necessidade de ser acompanhado por uma enfermeira foi uma das principais dificuldades que encontrou. “Isso era e é um fator pelo qual eu resolvi  empreender e montar um negócio próprio. Geralmente é um empecilho para entrar
em uma agência ou qualquer outro emprego”, comenta.

Com foco em atuar no ramo de criação, design e ilustração, Thulio fundou a Agência SKA e presta serviços de design gráfico, branding, mídia social, embalagem e até mesmo sites. O designer afirma que atualmente o mercado de trabalho está amadurecendo para a inclusão de pessoas com deficiência, mas a evolução é morosa. Para Thulio, o principal fator que alavancou as oportunidades para PCDs é a tecnologia.

“Acho que está em um processo muito lento, mas que está se movimentando depois de muito tempo estagnado. […] Por conta da tecnologia, aqueles que têm muita dificuldade e necessidades severas, tiveram portas abertas, tanto para estudar quanto para trabalhar. A internet veio para quebrar essas barreiras e o negócio agora é saber aproveitar essa oportunidade”, afirma Thulio.

A artista Ariadne Antico, 34 anos, teve paralisia cerebral que afetou sua coordenação motora e fala. Atualmente tem dois projetos que abordam exatamente este tema: inclusão de pessoas deficientes no mercado de trabalho.

“Eu fiquei três
anos e meio em
uma empresa
e não tive uma
oportunidade de
crescimento”

Ariadne Antico,
ArtIsta

Ariadne é atriz, palhaça, palestrante e produtora. Graduada em Gestão de Recursos Humanos, especialista em Inteligência Emocional e Gestão de Equipes, tem formação em Coach Pessoal, Profissional e Líder Coach. Um dos projetos itinerantes que mantém é a palestra “SER dEFICIENTE”, onde a autora conta um pouco de sua história no mercado de trabalho. O segundo e mais atual trabalho de Ariadne é o espetáculo “Birita Procura-se”, onde a personagem principal, a palhaça Birita, com as suas características, tenta se adaptar em diversas profissões.

Ela comenta que existem muitas vagas para PCDs no mercado de trabalho, mas a qualidade do emprego não é adequada – não na acessibilidade, mas sim no quesito oportunidade. Ela comenta que muitas empresas se concentram somente em preencher a cota obrigatória de PCDs no quadro de funcionários.

“Nada contra a cota, inclusive acho que ajuda muita gente. Só que ela realmente é aplicada de uma forma ‘zuada’. A maioria das vagas são para área operacional, é bem difícil  encontrar uma para nível superior. […] Eu fiquei três anos e meio em uma empresa e não
tive uma oportunidade de crescimento. Não é porque eu sou deficiente que não estudei, que eu não corro atrás”, afirma Ariadne.

Muitas pessoas com deficiência se qualificam profissionalmente e se preparam muito bem para o mercado de trabalho, seja por vontade própria ou até mesmo pelo incentivo da família. Porém, para a empresária Rosemary Moreira Cesar, 67 anos, falta incentivo do Governo para capacitar e incluir o PDC no mercado de trabalho. A empresária é mãe do modelo Rafael Moreira, portador de Síndrome de Down. Rosemary conta que impulsionou o filho desde criança a sentir-se confiante.

Ela elaborou e enviou ao Governo Federal um projeto que busca fomentara empregabilidade da pessoa com deficiência. A proposta aponta inclusive cuidados com a aparência.

“Nós encontramos cadeirantes e até mesmo pessoas com Síndrome de Down que depois dos 15, 20 anos, não têm projetos públicos para participar. […] Precisamos trabalhar também com a parte estética. Eles precisam se sentir bonitos para estarem firmes e confiantes para trabalhar. Algumas associações não se preocupam com isso”, comenta Rosemary.

Rosemary afirma que um dos objetivos do projeto é colocar as pessoas com eficiência em evidência e em locais de destaque na sociedade. Essa ação seria um grande passo a favor da inclusão e incentivo, não somente ao deficiente, mas também a família.

“A intenção é capacitar de verdade. Eles têm dificuldades, muitas vezes com a escrita, mas conseguem fazer outras coisas. O Rafa [filho] tem habilidade com massagem  por exemplo, ele poderia trabalhar com um médico famoso. O objetivo é colocar eles esses
lugares onde uma mãe que está grávida de um filho especial vai olhar e jamais vai pensar em tirar a vida do filho”, afirma a empresária.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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