Capa – A fusão entre a Embraer e a Boeing

A fusão entre a Embraer e a Boeing tem levantado uma série de discussões nos últimos meses, desde que as duas empresas assinaram um memorando de entendimento para criação da joint venture, em julho de 2018. De um lado, especialistas avaliam que a fusão é ‘uma porta de entrada para novos mercados’, e do outro apontam que a fabricante brasileira está sendo entregue aos americanos de ‘mão beijada’.

A criação de uma joint venture coloca em jogo uma das joias industriais do Brasil. A terceira maior fabricante de aeronaves do mundo, com sede em São José dos Campos, é especialista em jatos comerciais de pequeno porte e tem ainda uma gama de aviões civis e militares.

Com o novo pacto, que estava incerto até a aprovação por parte dos acionistas, ocorrida em fevereiro deste ano, a gigante Boeing passa a controlar 80% do capital da nova empresa e os 20% restantes ficarão sob a égide da Embraer. A americana assumirá ainda o controle das atividades civis da empresa brasileira pelo valor de R$U 4,2 bilhões, que representa R$ 15,74 bilhões aproximadamente. Além disso, está previsto a criação de outra joint venture para desenvolver novos mercados para o avião multimissão
KC-390.

Para o analista financeiro Rodolfo Manfredini, a decisão da Embraer de se fundir com a Boeing é acertiva para o mercado. “Do ponto de vista estratégico foi positivo. A decisão da Embraer foi corajosa e pode garantir bons resultados em longo prazo”, afirma.

Em relação ao mercado de jatos comerciais, a Embraer estava em situação complicada: fazer o acordo com a Boeing para garantir permanência no segmento ou perder para a canadense Bombardier, que em outubro de 2017 anunciou a fusão com a Airbus, e em poucos anos sairia na frente da fabricante brasileira com a venda de jatos. “Em longo prazo será bom para a Embraer. Ela não teria condições de competir no mesmo nível com a Airbus”, avalia Rodolfo Manfredini.

Após aprovação dos acionistas e a ‘carta branca’ por parte do presidente Jair Bolsonaro (PSL), uma vez que o governo brasileiro tem poder de veto por deter uma ação especial, chamada golden share, as ações da Embraer subiram 2,57% após dois dias seguidos de queda; o mesmo ocorreu com as ações da Boeing no Bovespa, que subiram 7,78% em um dia.

Robson Campos, sócio e assessor de investimentos da WFlow Invest, explica que as ações subiram por conta da ‘euforia do mercado’ e perfil especulador dos investidores, porém, analisando a longo prazo, as ações da Embraer vêm caindo.

“No último ano, analisando, as ações da Embraer vem caindo. Teve uma forte alta em julho do ano passado chegando a R$27,00 e agora estão operando a R$18,00”, aponta Robson.

Essa queda se deu, na análise do especialista por conta dos resultados ruins da empresa nos últimos anos. Em março deste ano, a Embraer divulgou os resultados do quarto trimestre de 2018 e apontou prejuízo líquido de R$ 78,1 milhões. A empresa fechou o ano passado com prejuízo líquido aos acionistas de R$ 669 milhões. Para Robson Campos, mesmo com a queda nos resultados, a Embraer tem uma posição de destaque no mercado.

“Essa joint venture com a Boeing é um ponto positivo. Porque as duas empresas iriam somar as divisões de aviação comercial para fazer frente a fusão da Airbus e a Bombardier, que seria o maior player na briga global. A joint venture com certeza vai fortalecer a posição da Embraer no mundo todo além de abrir um canal de distribuição em outro mercado que hoje ela ainda não tem”, comenta Robson.

Ao que tudo indica, o posicionamento estratégico da empresa é correto para a sobrevivência e crescimento no mercado global. Não há como prever com exatidão se os resultados serão positivos ou negativos, mas há certa confiança.

“Não tem como saber se o mercado ‘puxa pra cima’ ou ‘puxa pra baixo’, depende das características de cada empresa que está sendo fusionada. Quando duas empresas se unem, com certeza é pra melhor, estão dividindo custo e em teoria tendo mais lucro. Este é o mundo ideal, mas nem sempre é assim. Cada fusão é uma fusão, é muito particular e deve ser estudada por separado”, explica o analista.

Com a fusão entre as duas empresas cada vez mais perto, a Embraer anunciou na tarde da última segunda-feira (18) que o atual presidente e CEO da fábrica, Paulo Cesar de Souza, deixará o p Robson Campos, osto no próximo dia 22 de abril. O comunicado surge após a aprovação dos acionistas de fusão entre a brasileira e a Boeing.

De acordo com a fabricante, o futuro Presidente e CEO a ser eleito para o próximo mandato virá do mercado e será anunciado até a Assembleia Geral Ordinária, marcada para o dia 22 de abril.

Ameaça de demissões
Para o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SindMetal), joint venture entre Embraer e Boeing é preocupante e pode gerar uma demissão em massa. A preocupação se daria por conta da “falta de garantias” no contrato de fusão.

“Não existe nada no acordo referente a garantia de empregos. A Boeing terá 80% da nova empresa, a decisão de tudo será dela. Há a possibilidade por exemplo de daqui 5 anos a Boeing comprar os 20% restantes. Não há nenhuma garantia.”, diz Weller Gonçalves, presidente do SindMetal.

Para o sindicato, a verdadeira intenção da gigante americana é tomar posse da tecnologia da Embraer. “Nós acreditamos que a Boeing quer a tecnologia da Embraer. Nós temos uma empresa que cria e monta aviões. Essa venda fere a soberania do Brasil, porque a Embraer foi construída por brasileiros. É um crime de lesa-pátria”, afirma Weller.

O maior medo em torno da fusão das empresas é de fato relacionado aos empregos. De acordo com o sindicato, caso a unidade de São José dos Campos da Embraer fosse fechada, 13 mil trabalhadores estariam desempregados e cerca de 500 empresas prestadoras de serviços seriam fechadas.

A Embraer, por outro lado, afirmou por meio de nota que manterá sua produção e presença local no Brasil e que, somado a isso, será beneficiada de uma plataforma global para aumentar a atuação e criar oportunidades para sua força de trabalho. “Acreditamos que a parceria deve aumentar o investimento, o emprego, a renda, as exportações do Brasil e a geração de divisas”, diz um trecho.

Em nota, a Boeing afirmou que tem um compromisso a longo prazo com o Brasil e confirmou a intenção de geração de empregos. “O investimento significativo que a Boeing está fazendo nessa parceria também ressalta nosso forte compromisso com o Brasil[…] A parceria ampliará este relacionamento, criando mais empregos e oportunidades”, afirma a norte-americana.

Disse também que a fusão entre as empresas deve colaborar para o setor de pesquisa e desenvolvimento aeroespacial brasileiro. “A joint venture entre as duas empresas manterá e aumentará as capacidades de pesquisa e desenvolvimento da Embraer e ampliará as atuais colaborações com institutos de pesquisa e universidades”, aponta.

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