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Em tempos de crise, cidades da RMVale obtêm altos investimentos, atraindo empresas nacionais e internacionais

RMVale, como ‘Vale do Silício’ atrai cada vez mais empresas

Samuel Strazzer e Bruno Castilho - RMVale 

Diante de uma crise econômica, não é incomum ver investimentos diminuírem em algumas
cidades do país. Na Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte, porém, a situação parece seguir o caminho inverso.

Com cerca de 2,5 milhões de habitantes (IBGE-2018), a RMVale foi responsável por cerca de 4,8% do PIB do Estado de São Paulo em 2016 e continua sendo atrativa para empresas que já estão na região e outras que devem se instalar em breve.

Isso porque, desde junho, foram anunciados investimentos de R$ 1 bilhão da Nestlé em Caçapava ao longo de três anos e de R$ 1,5 bilhão da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), que irá se instalar por aqui, mas ainda não divulgou qual a cidade que receberá
uma unidade da empresa.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado foram reconhecidos 12 polos de desenvolvimento econômico com benefícios para a indústria, com a atração potencial de R$ 60 bilhões de investimentos em cinco anos, que inclui a RMVale. Atualmente, a região contempla sete polos: Biocombustíveis; Eco Florestal; Metal-metalúrgico, Máquinas e Equipamentos; Químico, Borracha e Plástico; Têxtil, Vestuário e Acessórios.

Ainda de acordo com a secretaria, o objetivo dos polos é fomentar e incentivar o aumento da produtividade das fábricas, atrair investimentos, impulsionar a inovação e a geração de empregos e renda, otimizando dentro da mesma região geográfica políticas públicas que impactam direta ou indiretamente o setor produtivo.

Avanços

Além dos investimentos já divulgados pela Nestlé e CSN, a região tenta atrair novas fábricas. Um exemplo é a disputa fiscal entre Taubaté e São José dos Campos para ter a planta da Huawei, multinacional chinesa líder global em tecnologia de soluções de informação da indústria e das comunicações, que pretende se instalar no Estado
de São Paulo.

São José já tem, também, conversas avançadas para sediar uma filial da Prati-Donaduzzi, uma das maiores produtoras de medicamentos genéricos do país; da suíça Kopter, que fabrica helicópteros e está estudando entrar no mercado brasileiro, além de uma empresa do gênero alimentício que ainda tem o nome sob sigilo. “O país vive um momento difícil, de crise, mas nós temos que fazer a nossa lição de casa e o que a gente faz é buscar oportunidades”, afirmou o prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB).

“O país vive um momento difícil, de crise, mas
nós temos que fazer a nossa lição de casa e
o que a gente faz é buscar oportunidades”

Felicio Ramuth,
prefeito de São José dos Campos

Em Taubaté, foi inaugurado o primeiro hub de inovação em tecnologia em parceria da prefeitura com a Unitau (Universidade de Taubaté). A intenção, de acordo com o prefeito  Ortiz Junior (PSDB), é inaugurar outros hubs de tecnologia, nas áreas de segurança cibernética, saúde e agronegócios para, enfim, iniciar o processo de funcionamento
do Parque Tecnológico da cidade, que foi fundado em 2013, mas ainda não possui nenhuma empresa.

“Esse é o ponto de partida do Parque Tecnológico. Para ter esse centro empresarial
são necessárias startups, incubação de ideias. Nós precisamos dessa etapa para chegarmos ao Parque Tecnológico”, disse Ortiz Junior.

“A região é conhecida como o Vale
do Silício do país. Se observarmos
os fatores, realmente o benefício
de uma empresa vir pra cá é
muito grande. […] Inclusive, muitas
empresas e startups que nasceram
na região estão se destacando no
mercado nacional e internacional”

Breno Andrade,
assessor especializado em investimentos

Jacareí, por sua vez, dispõe de um Parque Industrial que responde por 25% do PIB da cidade e visa atrair novos investimentos. A Prefeitura revelou à Metrópole Magazine que novas empresas demonstraram interesse em se instalar na cidade e anúncios de investimentos devem acontecer ainda em 2019.

“Vale do Silício”

Para Breno Andrade, 29 anos, assessor especializado em investimentos para empresas e sócio da Wflow, escritório parceiro da XP Investimentos, a região tem diversas características que estão atraindo cada vez mais empresas. Ele explica porque a RMVale é tão atrativa e ideal para empresas, desde as pequenas até as multinacionais. “A região é conhecida como o Vale do Silício do país. Se observarmos os  fatores, realmente o benefício de uma empresa vir pra cá é muito grande. […] Inclusive, muitas empresas e startups que nasceram na região estão se destacando  no mercado nacional e internacional”, afirma Breno.

Vários são os pontos fortes da região, se sobressaindo o fato de estarmos localizados estrategicamente entre o eixo Rio-São Paulo, fazermos front ira com o importante estado e Minas Gerais e termos saída pelo Oceano Atlântico. “São José dos Campos, e a RMVale
de maneira geral, está estrategicamente localizada. Próxima ao Porto de São Sebastião e a meio caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo, o que representam os primeiros diferenciais para atrair investidores”, afirma Breno.

Outro ponto positivo é a presença de diversas universidades, faculdades e escolas técnicas. Desde a inauguração do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) no ano de 1950 em São
José, a região tem se desenvolvido cada vez mais no que diz respeito à produção de conhecimento.

“A região é muito boa. Tem diversas
faculdades como o ITA e Etec, que
proporcionam mão de obra qualificada
para o nosso ramo. […] Esse eixo de
localização, com fácil acesso ao
porto facilita muito. Hoje a Globo
exporta e importa, compramos
matéria prima e vendemos peças.
Estamos em um patamar elevado,
tanto comprando, quanto vendendo
para o exterior”

Gilberto Oliveira,
sócio-diretor Globo Usinagem

Universidades públicas como Unifesp – SJC (Universidade Federal de São Paulo –Campus São José), FEG Unesp (Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá – Universidade Estadual
Paulista) e ITA (Instituto Tecnológico e Aeronáutica) em São José, e diversas outras instituições de ensino privadas, são grandes formadoras de profissionais especializados.

A presença dessas instituições tornou a RMVale uma região científica. A prova disso é a presença de centros tecnológicos como Cptec (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos) – localizado em Cachoeira Paulista – Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais), CTA (Centro Tecnológico Aeroespacial), Ieav (Instituto de Estudos Avançados) e Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) todos em São José.

“Temos cidades com excelentes profissionais. São vários colégios com qualidade de ensino, escolas técnicas e também universidades como Unesp, ITA, entre tantas outras. […] As grandes empresas que se instalam por aqui se sentem confortáveis com a capacidade
técnica e profissionais de alto nível intelectual e mão de obra especializada também para a produção”, comenta Breno. Outros dois tópicos que tornam a região bastante atrativa são ações dos governos municipais e a própria geometria e disponibilidade para ocupação.

“Temos muitas áreas planas que podem ser ocupadas ainda. […] Outro motivo é que há uma combinação de incentivos fiscais que se mostram importantes no momento de decidir”, afirma o especialista.

Breno explica que incentivo fiscal não significa somente ‘redução ou isenção de impostos’, mas uma cobrança diferenciada dos tributos. Em São José, por exemplo, a empresa pode destinar parte dos impostos para projetos de cultura e esportes. Além de beneficiar a
população, é marketing do interesse da empresa. Por fim, há o networking. Isto é,
existem grandes empresas instaladas na RMVale há décadas, cada uma com sua cadeia produtiva. Isso significa que cada empresa é um case de sucesso.

“Um exemplo é a Embraer. Como polo de grandes empresas que se capacitaram como fornecedores dessa gigante do setor aeronáutico, desenvolveram ferramentas que lhes permitiu ingressar em outras classes de empresas, não só deste setor”, explica Breno.

A empresa Globo Usinagem, para citar apenas uma, foi fundada em 1985 na cidade de Santo André, mas se mudou em 2000 para São José dos Campos a convite da própria Embraer. Gilberto Oliveira conta que vieram aos poucos mas o crescimento da empresa, já em 2004, impôs a migração para a cidade de Jambeiro, vizinha de São José dos
Campos e irmã na Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte.

“O motivo da Globo Usinagem ter vindo para o Vale do Paraíba foi por um convite da Embraer. Topamos a ideia, alugamos um galpão pequeno e viemos com algumas máquinas. Fomos crescendo e migrando aos poucos. […] O motivo da Globo escolher Jambeiro para a instalação de seu parque fabril foi receber em doação um terreno com
um incentivo fiscal de 10 anos que depois foi prorrogado por mais cinco”, conta Gilberto.

O empresário afirma que a empresa não só se adaptou bem, como cresceu com a vinda para a região. Ele também confirma que a mão de obra oferecida pelas instituições de ensino e a localização estratégica beneficiaram a Globo Usinagem. “A região é muito boa. Tem diversas faculdades como o ITA e Etec, que proporcionam mão de obra qualificada
para o nosso ramo. […] Esse eixo de localização, com fácil acesso ao porto facilita muito. Hoje a Globo exporta e importa, compramos matéria prima e vendemos peças. Estamos em um patamar elevado, tanto comprando, quanto vendendo para o exterior”, afirma
Gilberto.

Com as instalações de sua sede na RMVale, a empresa começou a fornecer para outros setores além do aeroespacial como para empresas de energia eólica, óleo e gás e até mesmo que trabalham com a exploração de petróleo no pré-sal. Hoje, há quase 20 anos na
região, o empresário conta que não só a empresa, mas ele próprio se adaptou muito bem à RMVale e não pensa em sair daqui.

“Eu nasci em Santo André e minha empresa era lá. A princípio eu não queria mudar pra cá não, mas com um ano aqui eu já perdi a vontade de voltar pra lá, hoje eu não voltaria para o ABC. A qualidade de vida aqui é diferente, tem bastante recursos, trabalho e oportunidades. Estou satisfeito aqui e gosto muito dessa região”, finaliza Gilberto.

Orgulho Regional

E o Vale do Sílicio brasileiro é orgulho para os moradores da região, com oportunidades de trabalho para os filhos e netos daqueles que migraram para cá, como importante gerador de empregos e com qualidade de vida que mudou o olhar do jovem que encontra
nos arredores de casa, oportunidades para formação técnica, graduação e todo tipo de complemento nas diversas áreas do conhecimento.

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