A Tamoios é a menina dos olhos do governo do Estado, por ser a principal rodovia que dá acesso ao porto de São Sebastião, e praias do Litoral Norte Paulista. São notórios os investimentos envolvidos em toda a manutenção e ampliação. Qual a responsabilidade e estabilidade envolvida em um cargo como o seu?
▸ Me sinto muito feliz e procuro ser um engenheiro que vê o lado humano sobre o aspecto de legado à sociedade. Acredito que essa obra, esquecendo um pouco essa parte da engenharia que é maravilhosa, vai mudar a cara da região. E claro, vem aquela vaidade realmente, porque o ser humano também vive disso. Estamos construindo aqui o maior túnel do país, com 1.500 metros, e o segundo também. Sou um baiano, engenheiro civil, tive muita sorte, mas sorte ajuda quem faz por tal, trabalhei em diversos Estados do país, Norte, Sul, trabalhei no Paraguai, Chile, Peru, tenho 30 anos de formado e há 20 trabalho com concessões. Fui um dos pioneiros no país nessa área e diria que tenho bastante ‘cancha’ nessa área. O que me empolgou em aceitar o convite foi realmente o desafio de construir uma rodovia desse porte, hoje temos 2.500 pessoas sob a obra. Vamos acostumando com a rotina, mas de vez em quando dá um friozinho na barriga. Com tanta dificuldade que o Brasil passa sobre o ponto de vista econômico e moral a gente vê que estamos colaborando positivamente, com prestação de serviço público diferenciado e melhoria nas áreas do Parque Estadual. A manutenção humana não é fácil. São muitas pessoas, principalmente em uma fase como a atual, onde há tantos desempregados. Todos empregados têm treinamento sobre o que é trabalhar dentro de um Parque Estadual. Concessão de rodovia é uma prestação de serviço público, a obra trabalha 24h por dia, só para domingo que há uma manutenção diferencial. São 8 horas de trabalho por dia em um ambiente completamente diferente, dentro dos túneis as pessoas já não têm mais noção se é noite ou dia, e ao sair eles veem onça, macaco, naquela região tem de tudo, nem imaginávamos. É uma mini cidade. Fizeram até um parto na rodovia. Você tem litígio, você tem nascimento, você salva muitas vidas na rodovia, a maior parte de nossos atendimentos não é acidente na rodovia é de ressaca, é um mundo, todo dia tem uma novidade, boas, ruins, mas eu diria que a maioria é muito bacana. Eu me sinto feliz com esse desafio, mas é importante salientar que a Tamoios foi montada para fazer esse desafio, é uma empresa que saiu do zero, eu sou uma peça da engrenagem, mas existe toda uma equipe envolvida. É uma empresa madura, de 4 anos, mas estamos bem preparados.

A duplicação do trecho de Serra compreende 21,6 quilômetros de novas pistas – entre o km 60,4 e o km 82 –, dos quais cerca de 15,45 quilômetros estão sendo viabilizados por meio de túneis e viadutos. O prazo de entrega está previsto para dezembro de 2020. Até lá, o usuário já enfrenta nova tarifa, congestionamentos que ultrapassam seis horas nos finais de semana. Como melhorar o uso da rodovia sem prejuízo às obras e principalmente aos usuários?
▸ A solução definitiva é a obra pronta, mas nesse interim muita coisa já foi feita para melhorar ou minimizar essa situação. Mas é impossível fazer uma omelete sem quebrar ovos. Nós recuperamos e alargamos sete curvas ao longo do trecho de serra, nós iluminamos toda a serra o que fez crescer muito o fluxo durante a noite na rodovia, que antes não existia, fora isso, temos os dispositivos de segurança, baias e barreiras. Temos 70 câmeras na rodovia, seis disponíveis no site que são clicadas 100 mil vezes por mês. Então, temos os cenários das melhorias e desse monitoramento, ou seja, o usuário precisa se programar em feriados, temporadas. Existem várias medidas que vão se somando para garantir melhoria. Mas a conclusão da obra é que vai resolver o problema.

“Se chover mais de 100mm vamos fechar a rodovia, mesmo recebendo reclamação de políticos”

É possível medir o impacto ambiental na região?
▸ Diria que são mais bônus do que ônus para o meio ambiente, porque o que estamos retirando estamos repondo com mais intensidade. Mais de R$ 12 milhões foram pagos à Cetesb como verba compensatória para serem utilizados em projetos ambientais. Para cada árvore retirada estamos plantando quinze, para cada animal que atendemos na rodovia, estamos tratando de outros 80 no centro clínico veterinário da Univap, que recebe investimento da Tamoios. Então diria que estamos resgatando e melhorando essa questão na região.

Até novembro deste ano foram registrados 370 acidentes, 120 deles com vítimas somando 5 mortes. Trabalhando em uma analogia de fluxo único, do total de acidentes, 112 foram de colisões traseiras e laterais. Segundo levantamento da Polícia Rodoviária, a principal causa das ocorrências é excesso de velocidade. Quais medidas serão tomadas para uma efetiva redução de acidentes no local? Há previsão de implantação de mais radares de velocidade?
▸ Na realidade, 90% dos acidentes na rodovia não registram vítimas. Infelizmente, a maioria dos óbitos é de motociclistas. Quando a obra for terminada, teremos três faixas para cada lado, isso vai melhorar consideravelmente a segurança. Temos sete curvas críticas que mexemos e as obras são caríssimas. Não existiam radares na rodovia e hoje temos 10 que são administrados por nós com repasse para o governo. A maior parte das reclamações que recebemos aqui é sobre isso e a redução no número de acidentes é nítida. Devemos dobrar o número de radares até o final da obra. O limite de velocidade vai ficar em 80 Km/h, mesmo podendo ter velocidades maiores em trechos da rodovia, mas pensamos na segurança e na facilidade de compreensão dos limites na estrada, sem confundir o motorista com variações de limites no trajeto. Temos um túnel auxiliar paralelo ao principal, seguindo a nova norma brasileira. Ele funciona como uma “escada de emergência”. Em caso de acidente, o usuário pode seguir a pé por esses túneis, mas que também permite o trânsito de caminhões de bombeiros e ambulâncias.

Foto ilustrativa/Divulgação – maquete eletrônica

Recentemente a rodovia foi fechada, por 90 horas para os usuários, em pleno feriado, devido a queda de barreiras na pista. Há tecnologias e a empresa dispõe de profissionais especializados em monitoramento de encostas e mesmo assim, não houve uma previsão ou medida que evitasse o desmoronamento e o bloqueio da via. O que podemos esperar de uma temporada de verão com os efeitos do El Niño, já divulgados por meteorologistas do CPTEC -INPE e demais empresas especializadas, que irão fatalmente atingir a área das encostas com chuvas intensas mais frequentes devido ao fenômeno?
▸ Tem até uma frase do Barack Obama que diz que a chuva de 100 anos acontece todo ano. E esse ano foi excepcional. Foram construídas cinco estações meteorológicas que indica toda a chuva na região que é muito suscetível, e se chover muito não poderemos enganar o usuário, teremos problemas até os túneis ficarem prontos. Nosso plano de contingência garante que se chover 60mm em duas horas todos os engenheiros saem a campo para vistoriar as encostas. Mas se chover 100 mm e assim o risco de desmoronamento aumenta muito, nossa opção é fechar a rodovia por 72h. Não tem solução e é um prejuízo financeiro e institucional, mas entre isso e a segurança do usuário, ficamos com o usuário. Nesse episódio, choveu 350 mm, ou seja, choveu muito acima da margem de segurança. A gente sabe que vai chover, mas essa intensidade é impossível de prever. Nós já protegemos e recuperamos uma série de encostas, e agora estamos prevendo um ajuste fino para melhorar ainda mais essa segurança. Essa serra é muito instável, já fizemos seis barreiras e fazer mais não será possível por questões financeiras e operacionais, porque temos que fechar a rodovia. Uma barreira de 500m custa em torno de R$2 milhões. Então, digo que se chover mais de 100mm vamos fechar a rodovia, mesmo recebendo reclamação de políticos, prefeitos e usuários, porque entre receber reclamação e ter a responsabilidade por uma morte, prefiro a reclamação.

Há previsão de aumento no pedágio?
▸ O pedágio é uma balança, tenho minhas obrigações com a rodovia e não importa se passar um carro ou um milhão deles. Mas temos que equilibrar essa conta. No contrato original prevê que a partir daquele ponto da obra temos reajuste. Mas não são por conta das obras que fizemos. Teremos um reajuste quando entregarmos o próximo contorno, além do reajuste anual da inflação, em julho. 

DEIXE UM COMENTÁRIO

Please enter your comment!
Please enter your name here